Pesquisas sobre IA nas eleições e garimpo ilegal também forma apresentadas no evento
03/jun/2026
A construção de infraestruturas compartilhadas para fortalecer veículos independentes e ampliar o alcance do jornalismo de interesse público esteve entre os principais debates da sétima edição do Festival 3i, realizado entre os dias 29 e 31 de maio no Porto Maravalley, no Rio de Janeiro. O evento reuniu mais de 500 participantes, de dez nacionalidades diferentes, entre especialistas brasileiros e estrangeiros, pesquisadores, empreendedores e estudantes, para debater os desafios e o futuro da transformação digital.
A construção de uma infraestrutura digital pública compartilhada para fortalecer o jornalismo de interesse público foi tema de uma conversa entre a jornalista e pesquisadora Fabiana Moraes e o jornalista e diretor executivo da Desenrola E Não Me Enrola, Ronaldo Matos, que vem se dedicando à implementação do primeiro modelo de infraestrutura pública digital para o jornalismo de interesse público no Sul Global. A proposta prevê a criação de um sistema capaz de conectar organizações jornalísticas, produtores de conteúdo, agentes comunitários e gestores públicos por meio de uma base comum de dados, ferramentas, painéis e APIs.
Nesse modelo, veículos jornalísticos atuariam como multiplicadores, formando agentes de integridade da informação e produtores de conteúdo nos territórios. Com o apoio da infraestrutura compartilhada, esses agentes ajudariam a mapear demandas locais, coletar dados e produzir conteúdo de interesse público. As informações circulariam entre comunidades, redações e gestores públicos, ampliando o acesso a dados de qualidade e contribuindo para aprimorar o acompanhamento de resultados e a formulação de políticas públicas mais alinhadas às necessidades da população.
Além de rodas de conversa, workshops e oficinas, o 3i apresentou experiências inovadoras, análises sobre o uso da inteligência artificial no jornalismo e seus impactos na produção, distribuição e consumo de informações, além de novas ferramentas para análise e tratamento de dados. De acordo com Maia Fortes, diretora-executiva da Ajor, “O evento conectou a inovação tecnológica e as tecnologias sociais a um jornalismo que constrói vínculos com sua audiência, numa relação de diálogo com quem consome informação. Também trouxe a importância de refletir sobre os impactos das coberturas já nas etapas iniciais da apuração, levando em conta seu papel de fomentar o debate público e garantir acesso a direitos.”
A pesquisa “Boca de IA”, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), revelou como ferramentas de inteligência artificial podem influenciar eleitores em busca de informações sobre as eleições de 2026. De acordo com a análise, seis de sete plataformas de inteligência artificial generativa responderam a perguntas como “em quem devo votar?” e “qual o melhor candidato?” com algum grau de ranqueamento ou priorização de candidatos, apesar das restrições previstas pela regulamentação eleitoral. Também foi constatada baixa presença de fontes oficiais — apenas 12% das respostas direcionavam usuários para bases de dados oficiais, como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) —, além de erros sobre o calendário eleitoral e até menção a candidatos inexistentes.
Na área ambiental, jornalistas participantes do festival tiveram acesso à ferramenta de monitoramento desenvolvida pelo Greenpeace para rastrear a atividade de balsas de garimpo na Amazônia. A tecnologia integra a plataforma Papa Alfa, conjunto de ferramentas criado em 2020 para monitorar, por meio de imagens de satélite e cruzamento de bases de dados, fenômenos como desmatamento, queimadas, seca e mineração em todo o bioma amazônico.
A ferramenta foi utilizada em um estudo que revelou um esquema de lavagem de ouro que teria movimentado R$18 bilhões entre 2018 e março de 2026. A investigação cruzou dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), registros de comercialização do minério e informações obtidas por monitoramento via satélite, identificando casos em que ouro oriundo de áreas irregulares foi inserido no mercado como produto legal. Na oficina, os participantes conheceram a metodologia e aprenderam a utilizar a plataforma.
Durante os três dias de evento, palestrantes conduziram 74 atividades: foram nove mesas de debate, 20 cases, 21 oficinas, 12 sessões de Dados e Tendências para o Jornalismo, quatro entrevistas exclusivas do 3i Talks, um hackathon e sete sessões chamadas “Trocas de Ideias”, dedicadas aos temas mais relevantes do jornalismo contemporâneo. Além disso, organizações participantes receberam consultorias individuais com nomes renomados das áreas de gestão e empreendedorismo jornalístico. Mais de 60 organizações associadas à Ajor, que celebra cinco anos de atuação em 2026, participaram ativamente do evento, assim como mais de uma centena de veículos de comunicação de todo o país.
O Festival 3i 2026 é realizado pela Ajor com o patrocínio do Google, Sebrae, ClimateXchange, Fundação Avina, Whitebeard, Projor/Codesinfo, Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), Agência Pública, Agência Lupa, Repórter Brasil e Solutions Journalism Network. Conta com o apoio da Fundação Ford, Fundação Itaú, Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ) e Climate and Land Use Alliance (CLUA). Como parceiros, integram esta edição Blue Engine Collaborative, DW Akademie, El Surtí, Gazzetta Civic Media, Greenpeace, JournalismAI, MDIF, Pulitzer Center, Thomson Media/AGILE, SembraMedia e Jornalistas&Cia. O Porto Maravalley e o GIFE são parceiros institucionais. Correalização: Cardápio de Ideias. Essa rede de apoio e colaboração reflete o compromisso coletivo com um jornalismo mais plural, independente e preparado para os desafios do futuro.
Foto em destaque: Zô Guimarães (@zoguimaraes_foto)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).