Guia de convivência e respeito do Festival 3i

Por um evento diverso, equânime, inclusivo e acolhedor

PREÂMBULO

O Festival 3i reconhece que o jornalismo deve refletir a complexidade, as cores e as dores do mundo real. Entendemos que a pluralidade não é uma pauta ou uma cota a ser preenchida, mas a própria matéria-prima da criatividade e da democracia. Entendemos que a inovação não prospera na uniformidade. Este documento não é apenas um conjunto de regras, mas a materialização do nosso compromisso ético que rege as relações entre associadas, equipe, fornecedores, palestrantes, bolsistas e público.

Neste espaço que construímos juntos, firmamos um pacto ético descrito abaixo:

1. Antirracismo como prática: Não basta não ser racista; é preciso ser antirracista. Reconhecemos o racismo estrutural e trabalhamos ativamente para desmantelá-lo em nossas falas, palcos e bastidores. O silêncio diante da discriminação é cumplicidade.
2. Respeito às identidades: Celebramos todas as formas de amar e ser. Prezamos pela construção de um espaço livre de LGBTQIAPN+fobia.
3. Acessibilidade não é favor: Entendemos a acessibilidade como um direito humano básico. Trabalhamos para eliminar barreiras físicas, comunicacionais e atitudinais, combatendo o capacitismo e garantindo que o conhecimento circule para todas as pessoas.
4. Descentralização de saberes: Combatemos a xenofobia e a hierarquização geográfica. Valorizamos os sotaques, os ritmos e as sabedorias que vêm das periferias, dos interiores e de todos os cantos do Brasil e da América Latina.

Sejam bem-vindas, bem-vindos e bem-vindes ao Festival 3i.

CAPÍTULO 1: PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS E DEFINIÇÕES

Para garantir que todos falem a mesma língua e não haja dúvidas sobre os conceitos.

1.1. Glossário Operacional

Diversidade: A variedade de características que tornam cada indivíduo único (raça, gênero, orientação sexual, deficiência, idade, origem regional, credo).
Equidade: O reconhecimento de que não partimos do mesmo ponto. Diferente de igualdade (tratar todos iguais), a equidade oferece suportes específicos para grupos historicamente marginalizados para “nivelar o campo de jogo”.
Interseccionalidade: A compreensão de que uma pessoa pode sofrer múltiplas formas de opressão simultâneas (ex: uma mulher negra e com deficiência enfrenta barreiras diferentes de um homem branco com deficiência).
Inclusão: Ações proativas para remover barreiras físicas, atitudinais e comunicacionais, garantindo que todos participem plenamente.

1.2. Tolerância Zero (Infrações Gravíssimas)

Não serão tolerados, sob pena de expulsão e medidas legais:

Racismo e Injúria Racial: Crimes inafiançáveis. Inclui segregação, ofensas verbais, piadas sobre cabelo ou cor da pele, e negação de acesso.
LGBTQIAPN+fobia: Discriminação baseada na orientação sexual ou identidade de gênero. O STF equipara a homotransfobia ao crime de racismo.
Assédio (Moral e Sexual): Qualquer conduta abusiva, gesto, palavra ou insinuação que constranja ou viole a dignidade da pessoa.
Xenofobia: Aversão ou preconceito contra pessoas de outras origens geográficas, manifestada através de deboche em relação a sotaques ou exclusão cultural.
Capacitismo: Discriminação, preconceito ou qualquer forma de violência contra pessoas com deficiência. Inclui atitudes como subestimar capacidades, infantilizar, excluir, utilizar termos pejorativos ou desrespeitar demandas de acessibilidade e autonomia.

CAPÍTULO 2: MANUAL DE INFRAESTRUTURA E ACESSIBILIDADE

2.1. Acessibilidade Arquitetônica*

Circulação: Corredores devem ter no mínimo 1,50 metros de largura para permitir a manobra de cadeiras de rodas. O espaço entre fileiras de cadeiras deve ser de no mínimo 60 cm.
Assentos Reservados: Garantir espaços para pessoas obesas (assentos reforçados e mais largos), que usam cadeira de rodas e com mobilidade reduzida nas primeiras fileiras e em locais de fácil evacuação.
Banheiros: Além dos banheiros adaptados para PCDs, o evento deve providenciar banheiros de gênero neutro ou garantir que pessoas trans utilizem o banheiro de acordo com sua identidade de gênero, sem constrangimento.

2.2. Acessibilidade Comunicacional e Sensorial

Intérpretes de Libras: Presença obrigatória e visível em todas as mesas principais e transmissão nos telões.
Audiodescrição e Estenotipia: Disponibilização de audiodescrição para pessoas cegas e, no caso de haver demanda para pessoas surdas oralizadas, legendagem ao vivo (estenotipia).
Sala de Descompressão*: Um espaço reservado, silencioso, com luz baixa e pufes, destinado a pessoas neurodivergentes (autistas, TDAH) ou qualquer pessoa que necessite de regulação sensorial longe do barulho do evento.
Linguagem Simples: priorização de textos e comunicações simples e objetiva, com mensagens claras e fácil de entender, permitindo que as pessoas encontrem, compreendam e utilizem o conteúdo com autonomia. Conforme orientações do portal de Linguagem Simples da Universidade Estadual de Campinas, comunicar com clareza é uma forma de promover inclusão e ampliar o acesso à informação para diferentes públicos, não se restringindo a pessoas com deficiência, mas beneficiando toda a sociedade, principalmente em contextos de diversidade educacional como o brasileiro. No Festival 3i, adotamos essa prática como um compromisso com a comunicação acessível e recomendamos organizar as informações em ordem lógica, apresentando primeiro o que é mais importante; evitar palavras abstratas, estruturas complexas e nominalizações, priorizando termos concretos e verbos de ação; escrever frases mais curtas com até 20 ou 25 palavras), revisando o texto para eliminar excessos; e utilizar a ordem direta (sujeito + verbo + complemento), que facilita a compreensão.

No caso da demanda de pessoas surdas, com deficiência intelectual ou neuroatípicas, será oferecido suporte especial para garantir o bom entendimento.

2.3. Alimentação Inclusiva (Buffet e Happy Hour)

Segurança Alimentar: O buffet deve ter opções claramente sinalizadas para: Veganos (sem produtos animais), Vegetarianos, Celíacos (sem glúten) e Intolerantes à Lactose.
Bebidas: Em momentos de Happy Hour, garantir opções não alcoólicas atrativas (não apenas água), respeitando quem não bebe por motivos religiosos, de saúde ou pessoais.

CAPÍTULO 3: MANUAL DE CONDUTA PARA STAFF E PRESTADORES DE SERVIÇO

3.1. Diretrizes de Abordagem

Respeito à Identidade de Gênero: É obrigatório o uso do nome social de travestis e pessoas transexuais, independente de retificação em documentos. O crachá deve refletir o nome social. Na dúvida sobre pronomes, pergunte respeitosamente: “Como você prefere que eu lhe chame?”.
Abordagem Humanizada: A equipe de segurança deve ser treinada para não realizar perfilamento racial (suspeição baseada na cor da pele). A postura deve ser de acolhimento e orientação, não de repressão.
Revista e Banheiros: Em caso de necessidade de revista (segurança), pessoas trans devem ser revistadas por profissional do gênero com o qual se identificam. Jamais restringir o uso do banheiro de acordo com o gênero biológico.

3.2. Cláusula Contratual de Diversidade

Todos os contratos com fornecedores devem incluir uma “Cláusula de Compromisso com a Diversidade”.

3.3 Letramento em Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI)

As empresas e fornecedores contratados devem obrigatoriamente participar de cursos, workshops ou outros formatos de formação em DEI, especialmente quando oferecidos pela organização do Festival. No caso de empresas com muitos fornecedores, deverão participar as lideranças e outras pessoas do staff capazes de multiplicar as informações para toda a equipe, num percentual mínimo de representação de 20%. As empresas que comprovarem a realização de cursos de letramento contínuo de DEI para sua equipe, poderão participar com um percentual de representação menor, de no mínimo 10%.

CAPÍTULO 4: POLÍTICA DE ACOLHIMENTO

4.1. Garantir que todos os convidados do Festival, sejam bolsistas ou palestrantes, sejam acolhidos por uma equipe.

Kit “Sobrevivência e Afeto”: Entregar um guia impresso/digital com dicas de alimentação barata no entorno, rotas de transporte seguro, hospitais e farmácias.
Mentoria Relâmpago: Designar “Padrinhos/Madrinhas” (voluntários da organização) para garantir networking, quebrando a barreira da hierarquia.
Logística Financeira: Garantir que o reembolso ou adiantamento de custos para bolsistas seja prioritário, reconhecendo que muitos não possuem fluxo de caixa para esperar.

4.2. Diversidade Regional e Xenofobia

Combate à Xenofobia: Instruir staff e moderadores a não permitirem piadas sobre sotaques ou “jeitos de falar”. Valorizar a diversidade de ritmos de fala.
Turismo Seguro: Para participantes de fora, fornecer mapa com zonas de segurança e contatos de emergência da Equipe de Acolhimento (não apenas da polícia).
Green Room Inclusiva*: Espaço de convivência para associadas trocarem experiências, com alimentação inclusiva e pontos de energia, promovendo a troca horizontal entre veículos grandes e pequenos.

CAPÍTULO 5: COMUNICAÇÃO, CONTEÚDO E PALCO

5.1. Dinâmica das Mesas

Combate à interrupção: Treinar mediadores para impedir que homens interrompam sistematicamente mulheres. Em rodadas de perguntas, priorizar a primeira pergunta para uma mulher ou pessoa negra.
Autodescrição: O mediador deve convidar todos os palestrantes a fazerem uma breve autodescrição visual (características físicas, roupas) no início de suas falas para inclusão de pessoas cegas. Deve ser objetiva e relevante. Comece dizendo seu nome e cargo/profissão, depois descreva características gerais como cor da pele, tipo e cor do cabelo e o que está vestindo (cores e peças principais). Também é possível mencionar elementos do ambiente, como estar sentado ou em pé, ou o cenário ao fundo. Evite julgamentos, adjetivos subjetivos ou descrições muito longas. O ideal é que a fala seja natural, breve e feita em primeira pessoa, como parte da apresentação.
Valorização de Saberes: Tratar o conhecimento empírico/vivencial de lideranças comunitárias com o mesmo peso e respeito do conhecimento científico/formal.

5.2. Estratégias do evento

Para divulgação: Publicação no site do Festival 3i um “Painel de Diversidade” atualizado em tempo real conforme os palestrantes vão sendo confirmados, mostrando aos participantes o percentual de palestrantes negros, indígenas, LGBTQIA+ e suas respectivas regiões. Esse painel dependerá de questões técnicas do site, mas deve ser implementado o mais breve possível. Além disso, esses dados deverão constar no relatório final do Festival 3i.
Conduta: No momento da compra do ingresso no Sympla, todo participante deve assinar um termo concordando com o código de conduta do evento.

5.2. Linguagem e Imagens

Linguagem Neutra/Inclusiva: Utilizar “todas as pessoas” ou “boas-vindas a todas, todos e todes”. Evitar o masculino genérico.
Imagens: Garantir que materiais visuais reflitam corpos gordos, negros, indígenas, pessoas com deficiência e idosos, fugindo da estética de banco de imagem padronizado.

CAPÍTULO 6: GESTÃO DE CRISES E DENÚNCIAS

6.1. Canais de Escuta

Equipe de Acolhimento diversa: Pessoas identificadas (ex: camisas com cores diferentes, coletes ou crachás com cordão com cor previamente informada) circulando pelo evento, treinadas para escuta ativa e acolhimento inicial. Este é o núcleo treinado e formal do evento, responsável por receber convidados e palestrantes de outras cidades, acolher participantes e lidar com questões sensíveis. Devem ser treinados anteriormente.
QR Code de Denúncia: Espalhado em banheiros, credenciais e telões para denúncias anônimas ou identificadas em tempo real.

6.2. Protocolo de Resposta em 4 Passos

1. Acolhimento da Vítima: A prioridade é a segurança física e emocional da pessoa com necessidade de acolhimento. Levar para local reservado, oferecer água e escutar sem julgamento.
2. Interrupção do Ato: Se a agressão for pública (ex: em uma palestra), a organização deve intervir publicamente, falar no microfone, repudiar o ato e pedir desculpas à vítima em nome do evento.
3. Apuração e Registro: Documentar o ocorrido, identificar testemunhas e o agressor.
4. Sanção:
>Leve: Advertência verbal e educativa.
> Grave: Expulsão imediata do evento, sem reembolso, e suporte para a vítima caso queira acionar a polícia (190) ou fazer BO.

CAPÍTULO 7: PÓS-EVENTO E LEGADO

Pesquisa de Clima: Enviar questionário específico para participantes e staff perguntando se presenciaram alguma situação de discriminação e como avaliam o acolhimento.

Feedback: Utilizar os dados para aprimorar o guia para a próxima edição.

Nota Final

Este guia deve estar acessível digitalmente a todos os participantes via site do Festival, redes sociais, kit de boas vindas e em espaços estratégicos do evento, sob o título “Guia de Convivência e Respeito do Festival 3i”.


*A organização do Festival 3i reafirma seu compromisso com a acessibilidade e o acolhimento, buscando sempre locais cuja estrutura atenda ao máximo às recomendações deste guia. Contudo, reconhecemos os desafios logísticos reais da produção de eventos. A configuração ideal dos espaços físicos, como a montagem de Green Rooms, salas de descompressão isoladas ou o layout de acessibilidade arquitetônica, estará sujeita à disponibilidade de datas e às limitações físicas dos espaços adequados ao porte do festival. Em casos de imprevistos, adaptações de última hora ou cancelamentos de locações, nossa equipe se compromete a adaptar o espaço disponível com criatividade, transparência e respeito, garantindo sempre a melhor experiência e segurança possíveis para todas as pessoas.