Mesa da sétima edição nacional do evento levanta questões sobre estratégias para conseguir o engajamento da audiência
03/jun/2026
O segundo dia do Festival 3i 2026 começou com a mesa “Criação, emoção e arte no engajamento da audiência”, logo na manhã do sábado. Com mediação de Marília Moreira (Instituto AzMina), a mesa recebeu Jakub Górnicki (Outriders), Pablito Aguiar (Sumaúma) e Sanara Santos (Énois), que contaram suas experiências lidando com diferentes formatos para engajar audiências. Os convidados apresentaram seus trabalhos e contaram como lidam com as diferenças nos processos de criação para formatos distintos.
Jakub Górnicki falou de seu trabalho na Outriders, fundada em 2017 pelo próprio e por Anna Górnicka; a organização busca explicar o impacto dos acontecimentos globais usando tecnologia e narrativa digital para se aproximar do público. Ele ressaltou que, nos últimos quase 10 anos, tenta fazer projetos que juntam arte e jornalismo para criar histórias que não sejam facilmente esquecidas, que atinjam e provoquem as pessoas.
Pablito mostrou seu olhar como repórter-quadrinista no site Sumaúma e pontuou que, apesar de produzir reportagens em quadrinhos, as histórias seguem o mesmo fluxo de produção jornalística de uma matéria escrita. O site Sumaúma – Jornalismo do Centro do Mundo foi lançado em 2022 e busca inverter a lógica geográfica tradicional do jornalismo, cujo olhar dominante é o do Sul-Sudeste. Sumaúma foca na Amazônia e está sediada em Altamira, no Pará, de onde atualmente trabalha Pablito.
A partir de suas experiências, Pablito enumerou os pontos positivos de se contar uma história no formato de quadrinhos:
Sanara Santos, diretora de operações da Énois — organização sem fins lucrativos que acelera redações locais e capacita jovens periféricos — destacou a importância de o jornalismo local trabalhar com articulação nas comunidades, e acrescentou que a arte é um elemento de informação. “Ela faz aflorar a sensibilidade de uma maneira que o jornalismo muitas vezes não consegue”.
Sobre o uso de diferentes formatos para a divulgação de informação, Sanara destacou a necessidade de variar os conteúdos: “A informação circula dentro de território em diferentes formatos, e o principal deles é a arte, em slams, saraus e poesias que refletem a realidade desses territórios. Então por que não usar essas ferramentas, essas manifestações que mobilizam as pessoas?”
A mesa trouxe temas como o distanciamento do jornalismo com seu público e o uso de novos formatos para conseguir alcançar a audiência, criando nela confiança e segurança. “Em muitos casos o jornalismo leva facilmente a conclusões, quando na verdade é sobre levar as pessoas a fazer perguntas. A arte chega justamente nesse lugar de fazer o público se questionar”, afirmou Jakub. Sanara explicou que na Énois resolveram retirar a palavra jornalismo e trocá-la por comunicação. “As pessoas entendem muito mais o que é comunicação do que o que é jornalismo. Essas palavras são importantes para o meio jornalístico e da comunicação, mas na real não tem relevância nenhuma dentro dos territórios. O importante é que as informações cheguem e que as pessoas consumam, não importa o nome que ganhe”, destacou.
Durante a rodada de perguntas, foram abordados temas como o uso da Inteligência Artificial na criação de conteúdos de jornalismo imersivo e o retorno das mídias físicas. Jakub pontuou que seu foco tem sido combinar experiências virtuais com as físicas e citou o ótimo retorno dessa fusão, especialmente em revistas, vinis e CDs. Segundo ele, essa tendência se dá devido à alta quantidade de tempo de tela nas sociedades contemporâneas, gerando uma necessidade pelo contato físico com produtos e pessoas.
Sobre o uso de IA no processo criativo, Jakub explicou que, no seu caso, ela acaba facilitando muitos processos e a execução do seu trabalho, gerando mais tempo para outras tarefas. Pablito, por outro lado, contou sobre o tempo que leva para a criação das tirinhas e como, na criação desse tipo de arte, não vê a IA como uma aliada. Em sua avaliação, nesse modelo que valoriza o trabalho humano, o tempo é algo que deve ser respeitado. “Eu acredito que o tempo é um ingrediente do nosso trabalho, então se fazendo um quadrinho eu estou inibindo o fator tempo e quero fazê-lo muito rápido, de certa forma eu acabo prejudicando o trabalho”, afirmou.
Sanara destacou como foi lidar com a mudança de criar arte e concordou sobre a diferença entre o tempo de produção artística e o de pautas jornalísticas. “Entender essa diferença é um grande desafio das organizações, por isso na Énois contratamos um curador para dar o ritmo de produção de arte para os projetos e diferenciar da metodologia de produção de pautas”. A mesa se encerrou deixando com o público o desafio de apostar em novos formatos e maneiras de engajar a audiência.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).