NOTÍCIA

Festival 3i 2026: Para combater o Voldemort da IA, um jornalismo inspirado em Harry Potter

Mesa debateu estratégias para garantir sobrevivência financeira do jornalismo independente sem perder a credibilidade dos conteúdos

POR Maria Luísa Fontes, da Agenc/Uerj | Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia |

09/jun/2026

A cada dia, jornais independentes tentam competir com as big techs; a cada dia, são superados pela discrepância de quantidade de conteúdo produzido. Diante dessa questão inevitável, a mesa  “Presente e futuro da sustentabilidade financeira no jornalismo”, realizada no último dia do Festival 3i 2026, apontou algumas possibilidades, entre eles que o caminho não é disputar leitores com grandes empresas, mas sim estabelecer uma relação de confiança e fidelidade com o público que consome seu produto.

O painel foi composto por José María León Cabrera (GK Ecuador), Madison Karas (Gazzetta), Guilherme Ravache (Valor Econômico), Shereen Daver (ClimateXChange) e mediado pela jornalista Vitória Régia da Silva, diretora do site Gênero e Número e presidente interina da Ajor (Associação de Jornalismo Digital), organizadora do festival. Logo no início do debate, os palestrantes afirmaram que a forma clássica de praticar o jornalismo, orientada por volume de notícias e rapidez de publicação, foi superada por grandes empresas de tecnologia, como Meta e Amazon, que estão dominando esses eixos. O Google, por exemplo, citado pelos convidados, começou como uma plataforma de busca que levava os leitores aos sites jornalísticos recomendados. Hoje em dia, a própria IA da empresa produz a notícia a partir da síntese que ela mesma faz das informações publicadas nos veículos jornalísticos.

Madison Karas afirmou que a palavra “sustentabilidade’’ é uma palavra muito vaga que pode ter vários significados, servindo tanto para descrever um estado que não está mais em modo de sobrevivência como para descrever um estado de lucro, com muito dinheiro sobrando. No entanto, a especialista disse que, mesmo que o dinheiro esteja crescendo, as operações estejam estabilizadas e a balança favorável, ainda existe trabalho a ser feito, e as organizações devem estar “ativamente aprendendo o que as pessoas precisam e qual informação precisa ser divulgada”.

“Se você é pautado na lógica do volume, você sempre vai estar na média, você nunca vai ter um conteúdo acima da média ou bom o suficiente para atrair as pessoas”, afirmou Ravache. Nesse sentido, o jornalismo independente, ao contrário de tentar alcançar o modelo de produção das IAs, precisa distribuir suas reportagens orientado pelo interesse do leitor sobre determinada informação. Para isso, é necessário que essas pequenas empresas conversem com seus públicos para identificar sobre qual assunto eles estão buscando se informar.

Os palestrantes ressaltaram que não se deve ficar preso a análises digitais que envolvam apenas números e gráficos, mas que as organizações jornalísticas devem perguntar o que seus leitores estão interessados em descobrir. Segundo Ravache, as pessoas não podem ser tratadas como “planilhas de Excel”, sendo necessário explorar convicções e valores dos consumidores. Para Daver, é preciso entender a audiência não apenas como usuários, mas como humanos que têm necessidades e condições que precisam ser atendidas pelos produtos jornalísticos.

Para Cabrera, é importante entender a diferença entre os conceitos de produto e serviço: produto é o conteúdo em si, ou seja, o que foi apurado, escrito e publicado, enquanto serviço significa a forma com que esse conteúdo atingiu o público e o que as pessoas entenderam sobre o que foi lançado. Em suas palavras, a discussão principal para o jornalismo hoje gira em torno de como conservar “a humanidade e o sentido de serviço para a sociedade, contando o que acontece no mundo”.

Para conseguir aplicar essas estratégias, Daver defendeu que o jornalista independente precisa, para além de ser empreendedor, ter uma mente empreendedora, disposta a inovar e se adaptar às mudanças tecnológicas e comerciais. Por isso, ter um plano de negócios é fundamental para uma pequena empresa crescer. Ela afirmou que é necessário saber o porquê de o produto existir, entender qual o público-alvo desse produto e pensar um pouco “fora da caixa”, pois existem vários tipos de audiências que podem se encaixar com seu produto.

Daver, ao ser perguntada sobre como ser inovador no jornalismo sem cair numa lógica completamente tecnológica e desconectada do propósito de servir ao público, refletiu sobre a mentalidade dos investidores. “Eles (investidores) buscam valor e a razão dos produtos existirem, e eles olham para as pessoas que estão por trás dos produtos e dos fundadores. Eles querem olhar nos olhos dos fundadores e saber quem eles são”, comentou a estrategista de inovação

Ainda nessa linha do planejamento financeiro, é preciso compreender que o jornalismo independente funciona como qualquer outra empresa e depende do lucro para se sustentar. Mas como alcançar isso sendo parte de uma imprensa independente que não funciona de acordo com a lógica das big techs? O pequeno empreendedor precisa buscar o diferencial que o distingue de outras empresas, estudando metodologias que incentivem o leitor a preferir o seu jornal.

Fazendo alusão à fantasia literária, Cabrera afirmou que “a inteligência artificial (IA) é como Voldemort [o vilão da saga Harry Potter]. É poderosa, mas não tem corpo. Então, nesse momento da saga, esses monstros não têm corporalidade”. E, para enfrentar Voldemort, completa, “temos que ser ainda como Harry Potter: pensar que a humanidade, com estratégia, com disciplina, com talento, com estrutura financeira, sim, vai levar a gente a um lugar melhor do que a produção por uma coisa que a gente não sabe o que que é”.

Ainda que Cabrera não descarte a utilidade ou importância das IAs, ele argumenta que a grande satisfação não é ver a quantidade de visualizações que um conteúdo atinge, e sim perceber “que uma pequena comunidade saiba e sinta que a notícia é dita”. Ele valoriza a necessidade de se conectar com o ser humano, se conectar com as pessoas e aprender o valor do sorriso, da reação de uma pessoa ao ler uma matéria. O equatoriano completou o raciocínio dizendo: “Temos que conservar o coração da nossa tarefa e não ter medo do futuro”.

Ao encerrar a mesa, Vitória Régia da Silva destacou que pensar no jornalismo sustentável é pensar num jornalismo “plural, diverso, de diferentes escalas, que trata de diferentes temas”, seja esse jornalismo investigativo, de dados ou local. De acordo com a jornalista, as lições retiradas da mesa foram as diversas formas de fazer jornalismo sustentável, e para isso é preciso construir organizações capazes de experimentar, de inovar e de testar novas alternativas de sustentabilidade – tudo isso sem perder de foco seu propósito e o porquê de elas terem sido inicialmente criadas.

Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.

Foto em destaque: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).