Conversa no formato Troca de Ideias debateu a cobertura eleitoral em áreas negligenciadas pela mídia tradicional
10/jun/2026
O jornalismo de proximidade entrou em debate durante o Troca de Ideias, formato de atividade inaugurado na edição deste ano do Festival 3i. O Troca de Ideias permitia que palestrantes e plateia de fato conversassem e trocassem impressões sobre o tema – e não foi diferente com o jornalismo de proximidade, também chamado de jornalismo hiperlocal ou jornalismo de território. O Festival 3i 2026 aconteceu entre os dias 29 e 31 de maio, no Porto Maravalley, no centro do Rio de Janeiro.
O jornalismo de território busca produzir notícias a partir do olhar da comunidade, com foco em lugares onde a grande mídia não chega. Muitas vezes, esses territórios são desertos de notícias, ou seja, regiões onde não há um veículo local. E a população desses lugares acaba, muitas vezes, sem acesso à informação, isolada do resto da sociedade. Veículos independentes, como Agência Lume (surgida na comunidade de Rio das Pedras, no Rio de Janeiro), Coletivo Sargento Perifa (Coletivo de Mídia Independente do Córrego do Sargento, no Recife) e COAR (veículo de checagem do Piauí), atuam para incluir moradores dessas regiões nos debates democráticos e garantir a posição deles como cidadãos ativos.
Para além do acesso à informação, veículos locais têm buscado se comunicar com a população de acordo com a demanda e a realidade dos territórios em que atuam. Rafael Costa, do Vozes da Comunidade, veículo de jornalismo comunitário independente do Rio de Janeiro, comentou que muitas vezes iniciava o texto contando sobre a feira de domingo para explicar sobre o porquê de a inflação estar alta. O intuito era se comunicar da melhor forma possível com o leitor, fazendo-o perceber como assuntos da esfera macro, como educação, saúde, economia e legislação, afetam sua vida.
Nas eleições municipais de 2024, a abordagem permaneceu. O veículo organizou uma sabatina com os vereadores que atuavam no Complexo do Alemão para saber quais eram as propostas dos candidatos sobre saúde, educação e infraestrutura. O encontro também serviu para ver quem de fato estava antenado com o que estava acontecendo no território, quais eram os problemas que eles tinham identificado.
Fernanda Calé, mediadora do debate e uma das fundadoras da Agência Lume, contou sobre a atuação do projeto, que também tem a preocupação de informar com qualidade sobre a realidade do território. “Nas eleições de 2022 e 2024, a proposta era fazer uma cobertura eleitoral voltada para o território do Rio das Pedras e seu entorno. A gente queria saber na real quando Rio das Pedras ia parar de alagar, quais eram as obras previstas”, lembrou.
Fernanda destacou que o eleitorado periférico territorial ainda é muito estigmatizado. Para ela, é fundamental “combater estigmas criados pela grande mídia sobre o eleitorado periférico/territorial mostrando a complexidade e a potência política dessas regiões”. A jornalista contou que a decisão de voto da população desses territórios parte da urgência de mudança. Então, se um candidato restaura um poste de luz na rua do morador, ele recebe o voto porque está fazendo uma mudança.
Em discussão sobre o eleitor que é PCD (pessoa com deficiência), Mariana Clarissa, fundadora da Lume Acessibilidade, iniciativa de produção de conteúdos e projetos acessíveis, ressaltou o estigma que acompanha esse grupo de leitores. O Projeto Checagem Acessível fez um levantamento de como as notícias jornalísticas chegavam às pessoas com deficiência, e concluiu que as informações não alcançaram essa comunidade porque não havia acessibilidade nos sites de jornal. Pelo contrário, o meio mais usado era o WhatsApp.
O acesso à informação envolve muitos aspectos. É preciso ter veículos locais, uma cobertura voltada para os interesses e demandas do território além de uma acesso real ao conteúdo. Assim, será possível traduzir pautas nacionais em histórias que façam sentido para a realidade do público-alvo.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Zô Guimarães (@zoguimaraes_foto)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).