Oficina promovida pela DW Akademie reuniu profissionais de comunicação para discutir caminhos para fortalecer a autonomia das mídias em um ambiente dominado pelas big tech
12/jun/2026
A programação do Festival 3i, que ocorreu entre os dias 29 e 31 de maio, no Rio de Janeiro, também contou com uma oficina pensada para que profissionais da comunicação refletissem sobre os possíveis caminhos para sobreviver em um cenário cada vez mais controlado pelas grandes empresas de tecnologia.
Facilitada por Cletus Gregor Barié, consultor sênior da DW Akademie, centro da Deutsche Welle para o desenvolvimento internacional da mídia, e por Luiza Cliente, coordenadora de projetos da DW Akademie América Latina, a oficina “Da dependência à ação: como as mídias podem sobreviver em um mundo onde as grandes empresas ditam as regras” se propôs a discutir, de forma estrutural, questões como a dependência dos veículos de comunicação em relação às plataformas digitais e os desafios para desenvolver tecnologias brasileiras e latino-americanas.
Dividida entre um momento expositivo e outro prático, a atividade utilizou um método de construção colaborativa entre as organizações. A primeira etapa contou com dois painéis que buscaram refletir sobre formas de recuperar o poder de negociação das mídias e construir novas maneiras de se relacionar com o público. Em seguida, as pessoas participantes se dividiram em grupos para compartilhar ideias, experiências e desafios diante dos impactos e da influência exercidos pelas grandes empresas de tecnologia.
Confira os quatro principais caminhos, construídos durante a oficina, para que as mídias fortaleçam sua autonomia em relação às grandes empresas:
1. Fortalecimento Coletivo e Alianças Estratégicas
O fortalecimento coletivo e a formação de alianças estratégicas foram algumas das principais estratégias debatidas. Entre as propostas discutidas está a criação de coalizões e frentes amplas capazes de reunir não apenas jornalistas e veículos de mídia, mas também artistas, pesquisadores, ativistas de direitos humanos e representantes da sociedade civil para negociar de forma conjunta com o poder público e as grandes empresas. A ideia é que através da negociação coletiva, aumenta-se o poder de barganha.
2. Desenvolvimento e Promoção de Tecnologias Locais e Open Source
Outro caminho possível é investir no uso de protocolos e softwares de código aberto (open source), desenvolvendo e adotando infraestruturas tecnológicas compartilhadas que não sejam controladas por empresas privadas. Isso também permite que os veículos de mídia tenham maior controle sobre o fluxo e o compartilhamento de suas informações exclusivas quando utilizadas por sistemas de inteligência artificial. Além disso, surge a oportunidade de fomentar o desenvolvimento e a adoção de ferramentas criadas na América Latina e no Brasil, fortalecendo a soberania tecnológica da região.
3. Sustentabilidade Financeira e Modelos de Negócio Independentes
Construir independência financeira por meio do apoio direto de leitores e usuários foi outra estratégia apontada pelos participantes. A diversificação das fontes de receita e o fortalecimento de modelos de financiamento independentes podem gerar maior autonomia para que os veículos recusem acordos desfavoráveis com plataformas digitais e, quando necessário, empreendam ações legais contra usos indevidos ou não éticos de seus conteúdos.
4. Ação Jornalística, Investigação e Relacionamento com o Público
A criação de investigações jornalísticas transnacionais e colaborativas, capazes de compartilhar dados de forma segura entre redações de diferentes países para expor táticas de lobby, processos de cooptação e impactos causados pelas grandes plataformas, foi apontada como uma alternativa para ampliar a transparência e a responsabilização dessas empresas. Somado a isso, destacou-se a importância de diversificar os canais de distribuição – inclusive por meios analógicos – para levar o jornalismo até onde os públicos estão, contornar a lógica dos algoritmos hegemônicos e superar barreiras de exclusão digital.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).