Coordenador de conteúdo da plataforma argentina Gelatina defende a mistura entre jornalismo e entretenimento no streaming e analisa como o ecossistema digital virou o principal campo de disputa pública
23/jun/2026
O produtor e comunicador argentino Emilio Laszlo é um dos nomes por trás do sucesso da Gelatina, canal de streaming multiplataforma que se tornou referência ao renovar a cobertura política na Argentina. Com passagens marcantes como repórter e colunista nas ruas de Buenos Aires, Emilio comandou o El Program, projeto autoral em formato vertical para Instagram e TikTok que registrou os principais acontecimentos sociais do país. Hoje, como coordenador de conteúdos e programação da Gelatina, lidera uma equipe que prova diariamente ser possível unir o rigor da informação à leveza do entretenimento.
Logo após participar da mesa “Quando o influenciador vira repórter, o que muda?” no Festival 3i 2026 – em que debateu o crescimento dos criadores digitais e a descentralização do monopólio da notícia –, Laszlo concedeu esta entrevista exclusiva ao Foca no 3i. No bate-papo, ele analisa o papel do humor e dos famosos “jingles” para aproximar uma audiência cansada da polarização, detalha os critérios éticos de um canal nativo digital que dispensa manuais de estilo tradicionais e projeta o futuro da plataforma como um espaço de intervenção política no Sul Global.
Confira a entrevista na íntegra:
Foca no 3i: A política argentina e de outros países latinos está muito polarizada. Por que você acha que os formatos de humor adotados pela Gelatina funcionaram tão bem para explicar esse cenário para o público?
Emilio Laszlo: O humor sempre funcionou muito bem na Argentina. No nosso caso, com o fenômeno dos jingles. Nós não inventamos a roda ao mudar a letra das músicas para fazer paródias; isso já vinha de antes. Mas o nosso sucesso aconteceu em um momento em que a política tradicional e a representatividade dos políticos estão em crise, um cenário que atinge não só a Argentina, mas quase todo o Ocidente. Uma parte expressiva da audiência e dos eleitores passou a se conectar muito mais com influenciadores, jornalistas ou comunicadores do que com os próprios políticos. Conseguimos expressar através do humor coisas que as instituições ou a política tradicional simplesmente não conseguem. O contexto socioeconômico já é muito duro e complicado. As pessoas querem saber as notícias e estar informadas, mas também querem um momento alegre. Ninguém quer ligar uma transmissão para se deprimir ainda mais.
Foca no 3i: Parte do público se sente distante do jornalismo tradicional. Você se enxerga como jornalista ou acredita que a Gelatina está construindo uma linguagem totalmente nova e distante do jornalismo clássico?
Emilio Laszlo: Acredito que há um componente inovador no que fazemos que vai além do jornalismo puro, mas os jornalistas estão muito presentes ali. Na Gelatina, trabalhamos misturando os dois mundos: temos jornalistas, comunicadores, militantes, influenciadores e humoristas. Convivendo com essas duas realidades, percebo as diferenças de linguagem, mas vejo que elas se misturam o tempo todo. O público continua confiando em certos meios sérios e em profissionais tradicionais, mas hoje a porta está aberta para que novas pessoas, com novos estilos e formatos, construam sua própria audiência. Antigamente, o mercado era fechado: você precisava obrigatoriamente passar pelo crivo de um produtor de TV, rádio ou jornal impresso para conseguir um espaço e ter um trabalho. Hoje, as redes e o streaming provam que essa não é mais a única via.
Foca no 3i: Como vocês lidam com a liberdade de falar por estarem em um veículo próprio, criado por vocês, equilibrando essa autonomia com a imensa responsabilidade de transmitir informações corretas?
Emilio Laszlo: Nós não temos um manual de estilo rígido ou uma lista de regras corporativas a seguir. Nosso pilar fundamental é a honestidade intelectual. Isso parece o básico, o mínimo, mas no cenário atual sabemos que nem todos têm. Por exemplo: nós não saímos espalhando boatos ou repercutindo fake news sabendo que são falsas. Outro ponto crucial é que nós não dizemos sempre o que o nosso público quer escutar — e esse é um dos grandes problemas da comunicação atual, especialmente na internet, onde as bolhas se alimentam do que conforta seus nichos. Nós abrimos o debate. Se cometermos um erro, o que acontece de fato porque trabalhamos minuto a minuto com o factual, nós assumimos o erro no dia seguinte, pedimos desculpas no ar e seguimos em frente. Para além desse compromisso ético básico, também acompanhamos o trabalho dos veículos tradicionais de investigação, pois sabemos que eles fazem um processo de apuração mais profundo que nós não fazemos no dia a dia da nossa programação de estúdio.
Foca no 3i: Como você avalia o papel e o posicionamento da Gelatina na Argentina hoje?
Emilio Laszlo: A Gelatina nasceu com uma certeza clara: o ecossistema digital é um território a ser disputado, faz parte do debate público. A internet não é só um lugar onde as pessoas se informam, é onde as pessoas vivem hoje. Para nós, tanto o terreno digital quanto a rua e as instituições são importantes. Não nascemos apenas para contar o que acontece, mas para intervir na realidade. Felizmente, alcançamos um patamar onde o mundo político nos presta muita atenção. Nos primeiros anos, se eu ligasse para um deputado nacional convidando-o para o programa, ele me perguntava: “O que é Gelatina e por que eu iria a um canal de YouTube?”. Tudo mudou quando Javier Milei venceu as eleições, justamente agindo primeiro como um influenciador digital e depois como político. Hoje ninguém mais discute a centralidade do YouTube, do TikTok ou do Instagram. Os dirigentes políticos que querem dialogar com a sociedade ou intervir no discurso público pensam na Gelatina.
Foca no 3i: O que vocês buscam construir daqui para frente com a Gelatina?
Emilio Laszlo: Daqui para frente, nosso plano é continuar crescendo, estruturar melhor a nossa organização interna e fazer um bom trabalho. No ano que vem teremos um período eleitoral forte na Argentina e queremos que a Gelatina seja uma voz ativa. E não se trata apenas de fazer campanha para que um candidato ganhe ou perca, mas de pautar assuntos que realmente interessam à sociedade. Estamos discutindo inteligência artificial, geopolítica e história argentina. São temas profundos, que muitos consideram pouco atraentes ou sem potencial de clickbait para a massa na internet, mas a nossa comunidade nos prova o contrário: as pessoas se interessam, escutam com atenção e participam ativamente da construção desse espaço coletivo.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).