Ao apresentar resultados da pesquisa Desigualdades Informativas durante o Festival 3i 2026, o jornalista falou sobre espaços digitais cada vez mais mediados por recomendações de algoritmos. Desinformação, inteligência artificial e chatbots são fatores de preocupação em ano de ciclo eleitoral
23/jun/2026
Os hábitos informacionais em diferentes territórios do país estiveram no centro de algumas das pesquisas abordadas no espaço “Dados e Tendências” do Festival 3i 2026. No último dia do evento (31/05), três apresentações levaram ao público do Festival dados importantes sobre consumo de notícias e informação.
Uma dessas pesquisas foi apresentada por Matheus Soares, coordenador de conteúdo do Aláfia Lab. Ele falou sobre os principais resultados presentes no relatório Desigualdades Informativas 2025, levantamento de abrangência nacional.
A pesquisa, cuja série histórica foi iniciada em 2023, confirma a tendência dos últimos anos e mostra que as redes sociais continuam sendo a principal fonte de informação entre os brasileiros. Soares destaca também o crescimento significativo dos chamados aplicativos de mensageria, como WhatsApp e Telegram, na busca por informações.
Para ele, há um outro dado fundamental para compreendermos a lógica atual do consumo de informações: a tendência de afastamento das conexões interpessoais, transformando as redes digitais em espaços cada vez mais mediados por algoritmos e influenciadores.
Em entrevista exclusiva ao Foca no 3i, o jornalista falou sobre essas e outras tendências observadas na pesquisa e seus possíveis impactos no ciclo eleitoral de 2026. Confira na íntegra:
Foca no 3i: O projeto Desigualdades Informativas, liderado pelo Aláfia Lab, produziu o seu primeiro relatório em 2023. A partir da diversidade que caracteriza os hábitos de informação nos espaços digitais e com um contexto de forte sobrecarga de informação, quais são as principais mudanças que você pode apontar nesse curto período desde que a pesquisa vem sendo desenvolvida?
Matheus Soares: Ao longo do tempo, vimos crescimentos e quedas de hábitos de consumo de informação dos brasileiros, como a consolidação das redes sociais como principal fonte de informação. Também identificamos hábitos específicos, como o uso do Instagram, que vem crescendo entre as mulheres. Identificamos que 49,3% das mulheres apontam o Instagram como sua principal fonte de informação, em comparação a 33% dos homens. Já o X (antigo Twitter) apresentou queda no consumo entre os dois gêneros. Entre os homens, a proporção caiu de 9,9% em 2024 para 6,9% em 2025; entre as mulheres, de 6,1% para 3,3% no mesmo período, indicando uma retração contínua da rede como principal escolha para consumo de informação. Ao mesmo tempo, houve uma queda no uso do Facebook como principal rede social. Em 2024, 14,9% das mulheres e 16,3% dos homens o elegiam como rede prioritária e, em 2025, esse número caiu para 10,3% e 14,7%, respectivamente.
Foca no 3i: E em relação ao relatório de 2025, cujos principais resultados foram apresentados no Festival 3i 2026: o que você e a equipe do Aláfia mais destacam ou acham que mais surpreende em relação aos hábitos de consumo de informação de brasileiras e brasileiros?
Matheus Soares: Um dado interessante foi o crescimento do uso de aplicativos de mensageria, como WhatsApp e Telegram, para a busca de informações. Essas fontes saltaram de 21,5% em 2024 para 28% em 2025, evidenciando como essas plataformas estão sendo utilizadas atualmente. Além disso, também compreendemos que as redes sociais estão menos sociais, com amigos e conexões pessoais perdendo espaço para recomendações de algoritmos e influenciadores. Em 2025, observamos uma redução no número de pessoas que seguem perfis de amigos, familiares e conhecidos nas redes sociais. Essa tendência, presente em todas as plataformas analisadas, indica um afastamento das conexões interpessoais e reforça o movimento de transformação das redes em espaços cada vez mais mediados por algoritmos de recomendação, conteúdos de influenciadores e perfis de humor.
Foca no 3i: Na apresentação durante o Festival 3i 2026, você mencionou que as redes sociais continuam sendo a principal fonte de informação da população do país, mas houve um crescimento dos chatbots, das ferramentas de inteligência artificial e das newsletters. Você acha que esse crescimento pode ampliar a circulação de desinformação? Ou, ao contrário, essas opções podem indicar possibilidades de informação mais personalizada ou confiável?
Matheus Soares: Os chatbots de IA foram incluídos pela primeira vez na pesquisa nesta última edição de 2025, de forma que não temos dados dos anos anteriores que nos deem um panorama de crescimento ou queda. Mesmo assim, essa fonte de informação apareceu nas respostas de forma expressiva. Ainda é difícil cravar com certeza se os chatbots aumentam ou diminuem a circulação de desinformação, mas é possível levantar alguns receios em relação a isso. Uma das principais preocupações é a possibilidade dessas funcionalidades “alucinarem”, isto é, inventarem informações sobre determinados assuntos de uma forma aparentemente tão segura e confiável que pode enganar quem recebe a resposta. Outro ponto é a própria tendência de personalização extrema, incorporada na dinâmica dessas tecnologias, de maneira que os chatbots dificilmente irão questionar ou contrariar quem interage com eles. Isso pode reforçar perspectivas e informações errôneas. Fora a possibilidade deles serem utilizados de forma maliciosa como ferramenta na cadeia existente de produção de desinformação em massa.
Foca no 3i: Você publicou, em 2025, um texto no site Desinformante sobre o relatório da Global Coalition for Tech Justice que avaliou o papel das plataformas no megaciclo eleitoral de 2024. Ao mencionar as últimas eleições municipais no Brasil, foi pontuado que o relatório apontou que “enquanto muitos esperavam uma onda de manipulação impulsionada por IA, as eleições viram apenas alguns incidentes notáveis”. O Observatório IA nas Eleições relatou problemas em 2024, mas talvez não de forma suficiente para interferência direta nos resultados. Agora, em 2026, há uma preocupação crescente sobre como a IA pode interferir nas eleições majoritárias para Presidência, governos estaduais e Congresso Nacional. Você acha que a pesquisa Desigualdades Informativas já aponta para isso ou consegue, de alguma forma, indicar esse contexto de forte presença da IA nas informações e decisões de voto?
Matheus Soares: Nos últimos anos, o Aláfia Lab vem acompanhando de perto a adesão das IAs pelos brasileiros e o receio do impacto dessas tecnologias na democracia. Na última edição da pesquisa, adicionamos a categoria de chatbots de IA ao entendermos que essas funcionalidades já poderiam estar sendo utilizadas pelos brasileiros como fontes de informação. E para nossa surpresa, elas não só estão sendo utilizadas, como também já se igualam a fontes mais tradicionais, como jornais e revistas impressas. A partir disso, considerando este um ano eleitoral, esse dado levanta a possibilidade dessas tecnologias estarem sendo utilizadas pelos cidadãos para buscar informações sobre política, como perfis e propostas de candidatos, além de procurar dados sobre acontecimentos políticos, influenciando a perspectiva e a opinião das pessoas, mostrando como, aos poucos, as IAs também farão cada vez mais parte do debate e da participação política das pessoas.
Foca no 3i: A próxima pesquisa será feita no âmbito de mais um megaciclo eleitoral, com fortes tendências de desinformação e uso de inteligência artificial. Quais são as expectativas para os próximos relatórios?
Matheus Soares: Vamos realizar o Desigualdades Informativas no próximo ano, mas neste ano já lançamos e vamos lançar novas pesquisas realizadas a partir dos desdobramentos do Desigualdades de 2025, com um olhar mais aprofundado sobre temas como Inteligência Artificial, posição política e território. Acabamos de lançar, por exemplo, a pesquisa “Como os brasileiros percebem a circulação de desinformação e o uso da Inteligência Artificial”, analisando como a desinformação e a IA estão transformando o consumo de informação no Brasil. A partir dos marcadores de gênero, idade, classe, escolaridade, religião, raça e posicionamento político, o estudo identifica diferenças na forma como distintos grupos percebem a desinformação e utilizam ferramentas de IA.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).