Zô Guimaraes
Criador de “Vida de Jornalista”, ele ministrou uma oficina com técnicas de escrita para contar histórias em áudio
11/jun/2026
O jornalismo em áudio consolidou-se como um dos territórios mais férteis para a experimentação de linguagens. Mas traduzir apurações complexas em uma narrativa fluida, imersiva e natural exige técnicas que subvertem as regras tradicionais do texto impresso. Foi com foco nessa transição que o jornalista Rodrigo Alves conduziu, durante o Festival 3i, a oficina “Roteiro para Podcast: técnicas de escrita para contar boas histórias no jornalismo em áudio”.

Rodrigo Alves propõe uma categorização em quatro pilares fundamentais, facilitando a visualização da história antes mesmo de iniciar a montagem da estrutura final:
1. A locução: o fio condutor da narrativa. É a voz do apresentador que contextualiza e amarra os acontecimentos.
2. As falas de entrevistados: depoimentos e testemunhos que dão veracidade e profundidade ao relato.
3. A “ilustração de áudio”: é como ele designa qualquer som que sirva para ilustrar o ambiente relatado; isso inclui trechos de arquivos de telejornais, captações de paisagens sonoras, ruídos urbanos ou fragmentos de discursos públicos.
4. A música: a trilha sonora que desempenha função narrativa, definindo o clima e demarcando as transições de blocos.
A produção de um podcast exige uma preparação em fases prévias ao ato de escrever. O processo ideal distribui-se em três etapas: organizar o material bruto; estruturar a arquitetura da história, o esqueleto; e, por fim, redigir o roteiro final. De acordo com Rodrigo Alves, quanto mais energia é investida nas duas primeiras fases, menor é o sofrimento diante da temida tela em branco.
1. Organização:
Após retornar da entrevista com horas de gravação, o primeiro passo consiste em categorizar e catalogar arquivos em pastas específicas. Embora ferramentas de inteligência artificial facilitem essa parte, o texto impresso nunca deve substituir a escuta atenta dos arquivos sonoros. A transcrição mascara hesitações, emoções na fala, pausas e entonações que transformam uma frase banal em um momento dramático. “O áudio é soberano nessa história”, enfatiza Alves.
2. A construção do esqueleto ou escaleta:
O esqueleto é a arquitetura funcional do episódio. Trata-se do mapa que define o que entra na abertura, no desenvolvimento de cada bloco e no encerramento. Para guiar essa montagem, a pessoa deve responder a essa série de perguntas que envolvem identificar a essência da história central, selecionar o melhor material, definir o que deixar de fora para manter o tom ideal e planejar os ganchos de abertura e encerramento.
3. Modelos de esqueleto:
O modelo jornalístico tradicional aposta na lógica direta do lead, encadeando locuções e sonoras de forma factual. O modelo cronológico acompanha a linha do tempo dos fatos sem grandes rupturas, exigindo cortes cirúrgicos de edição para manter o dinamismo. Já o modelo de salto temporal ou mosaico de memórias quebra a linearidade, conectando anos distantes e exigindo cuidado redobrado do locutor para avisar o ouvinte sobre as transições e evitar desorientação.
Um dos formatos mais discutidos na oficina foi o chamado “roteiro em E”. A dinâmica consiste em iniciar o episódio projetando uma cena de abertura impactante, misteriosa ou instigante. Em vez de resolvê-la de imediato, a narrativa faz uma curva e caminha por outros contextos. Somente no último terço do episódio a linha narrativa retorna ao ponto de partida para amarrar, concluir e solucionar o mistério plantado inicialmente. Foi a técnica que Rodrigo utilizou ao traçar o perfil do jornalista Francisco José: abriu o episódio plantando a cena em que o repórter virou refém em um assalto a banco nos anos 80, recuou para contar sua trajetória e retornou ao clímax do crime no final.
Nos bastidores do festival, o Foca no 3i conversou com Rodrigo Alves para aprofundar os caminhos dessa produção em áudio. Com uma bagagem de 27 anos no jornalismo e uma longa trajetória em grandes redações, há quase oito anos ele se dedica exclusivamente aos podcasts narrativos e jornalísticos. Após deixar seu emprego na Globo, ele fundou uma produtora focada no desenvolvimento de narrativas sonoras para diversos clientes, mantendo em paralelo o projeto Vida de Jornalista, que conta as histórias dos profissionais de jornalismo. Para ele, a oportunidade de ministrar a oficina no festival e compartilhar sua maneira de trabalhar com uma turma grande, cheia de dúvidas e vivências próprias, foi uma experiência da qual ele não abre mão.

Ao ser questionado sobre o ponto de partida para quem dá os primeiros passos na escrita, Rodrigo explicou que, embora o roteiro para podcast não seja engessado por regras rígidas, o segredo da naturalidade está em pensar na imersão do ouvinte. A pessoa deve ter em mente que há alguém escutando do outro lado e pode, inclusive, trazê-lo para dentro do texto de forma explícita. Segundo o jornalista, o grande truque reside em desapegar das formalidades do texto escrito. Enquanto o jornalismo impresso exige rigor gramatical e ortográfico, o áudio pede a fluidez da conversa orgânica. Detalhes como falar ‘tô’ em vez de ‘estou’ ou ‘pra’ no lugar de ‘para’, além de suprimir os ‘Rs’ ao final dos verbos, ajudam a construir um roteiro mais próximo do ouvinte.
Olhando para o cenário atual, o criador do Vida de Jornalista ressaltou que estar em eventos como o Festival 3i é fundamental tanto pelo aprendizado técnico quanto pelas trocas que acontecem nos corredores. Para a nova geração que ingressa na carreira, Rodrigo deixou um conselho encorajador sobre o uso da tecnologia. Relembrando o início de sua carreira em 1998, quando trabalhar com jornalismo dependia obrigatoriamente de uma vaga em grandes veículos impressos, de rádio ou TV, ele destacou as ferramentas gratuitas disponíveis hoje. Canais digitais, plataformas de streaming e redes sociais democratizaram a distribuição de conteúdo. Alves incentiva os estudantes a utilizarem esses canais para exercitar a profissão sem medo de errar, reforçando que falhas acontecem com profissionais em qualquer nível de experiência. Para ele, diminuir a autocobrança excessiva e focar na prática constante é o caminho para o amadurecimento profissional.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Zô Guimarães (@zoguimaraes_foto)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).