Mesa de abertura apontou aplicações práticas para as ferramentas automatizadas e destacou necessidade de letramento urgente das redações em tecnologia
03/jun/2026
A mesa de abertura do Festival 3i 2026 deu o tom de um dos debates centrais do encontro, cuja edição deste ano aconteceu no Porto Maravalley, no centro do Rio. Com o tema “IA e pensamento estratégico em redações jornalísticas”, a conversa reuniu especialistas para discutir como a inteligência artificial está redefinindo a rotina das organizações de notícias, com mudanças que vão além das ferramentas técnicas para focar na sobrevivência do modelo de negócio e na própria qualidade da informação.
Ana Paula Valacco, mediadora da mesa e líder de engajamento na JournalismAI, destacou os desafios enfrentados pelas organizações. Das grandes redações aos veículos locais, a busca por se reinventar e angariar investimentos são questões que se renovam diariamente no cotidiano de quem produz informação. A disputa dessas redações pela audiência – leitor, ouvinte ou telespectador – não fica restrita ao veículo jornalístico concorrente, mas também passa pelos mecanismos de tecnologia.
É nesse contexto de saturação de informação e fadiga da audiência que, na avaliação de Ana Paula, a Inteligência Artificial surge não apenas como um desafio, mas como uma peça estratégica. A especialista lembrou que a IA já é faz parte do cotidiano desses leitores e telespectadores: de acordo com a organização internacional EY, 63% da Geração Z considera que a IA traz impacto positivo para a vida. Ana reforçou que não dá para tratar essas tecnologias como inimigas das redações e disse que a IA pode ser uma boa aliada no trabalho.

Um dos pontos centrais da discussão foi a desmistificação da tecnologia. Victor Martin, gerente de Programas no Google DeepMind, afirmou que a IA deve ser encarada como um “estagiário superinteligente”. Para Martin, a grande vantagem da tecnologia é “devolver tempo ao jornalista”, automatizando tarefas mecânicas e repetitivas para que os profissionais possam focar no desenvolvimento de pautas e no jornalismo investigativo.
Entre as aplicações práticas citadas pelo especialista estão a transcrição de entrevistas, tradução de documentos, análise de grandes volumes de dados, como arquivos do FMI ou Banco Mundial e até o brainstorming para novas abordagens de temas antigos. Martin enfatizou que ferramentas gratuitas como o Gemini, ChatGPT e NotebookLM já permitem que redações de qualquer tamanho comecem a experimentar sem custos grandes. No entanto, deixou um alerta: a tecnologia ainda alucina, ou seja, gera informações completamente erradas, e exige verificação constante. “Não confie cegamente na IA”, pontuou.
Sabrina Passos, diretora sênior da Blue Engine Collaborative, trouxe uma perspectiva focada na sustentabilidade financeira. Ela observou que, muitas vezes, as redações se perdem no hype ou no pânico da criação de conteúdo, ignorando como a IA pode resolver problemas operacionais de negócio. “A IA pode ajudar muito na estratégia do negócio, e muitos líderes ainda não estão pensando nisso”, afirmou. De acordo com ela, organizações independentes podem ganhar escala em operações complexas em menos de 90 dias com ferramentas de baixo custo.
Passos citou casos reais de sucesso desenvolvidos nos laboratórios da Blue Engine, como o “Caçador de Jabuti” da Revista Fórum. A ferramenta utiliza IA para analisar projetos de lei e identificar emendas, os jabutis, que tentam passar despercebidas. O que antes levava horas de análise humana agora é feito em minutos com alta precisão, permitindo que o repórter foque na denúncia e no impacto social da matéria.
A discussão também mergulhou na dimensão humana e ética. Ludovic Blecher, ex-Google e atual CEO da IDation, não fugiu das questões espinhosas. “A gente nunca vai se livrar do medo da IA, pois ela é assustadora. Ela pode destruir nossos empregos”, admitiu. Apesar do alerta, ele defendeu que o medo não deve levar a uma atitude passiva. Para Blecher, a resistência radical é um erro, pois a IA já está integrada ao cotidiano da sociedade e das plataformas. “Se você não produzir jornalismo de qualidade, você não vai sobreviver à revolução das IAs”.
Um consenso entre os palestrantes foi a necessidade urgente de letramento em tecnologia dentro das redações. Sabrina Passos defendeu que as conversas sobre IA precisam “sair das redações e ir para os outros andares”, envolvendo lideranças e setores administrativos para criar uma visão dentro da organização. Questões como transparência sobre quando e como declarar o uso de IA, segurança de dados e políticas internas de uso foram apontadas como essenciais para evitar erros que possam comprometer a credibilidade do veículo.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Zô Guimarães (@zoguimaraes_foto)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).