NOTÍCIA

foto Zô Guimaraes

Festival 3i 2026: Frente à desinformação, debate destaca força do jornalismo de território para se reconectar com o público

A conexão com os territórios é um dos principais caminhos para o jornalismo reconquistar a confiança da audiência

POR Everton Victor, da Agenc/Uerj | Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia |

09/jun/2026

E se o ponto de partida da informação saísse das grandes redações e entrasse nos territórios? Para a mesa do terceiro dia do Festival 3i 2026, esse é o futuro do jornalismo. Na conversa “Em que direções se movimentam o jornalismo local?”, os participantes destacaram que, mesmo em momentos de crise de financiamento e de desafios impostos pelo avanço da inteligência artificial, é nos territórios que o jornalismo consegue se reconectar com as necessidades de quem consome a informação. O evento de jornalismo inovador, inspirador e independente ocorreu entre os dias 29 e 31 de maio no Porto Maravalley, no Centro do Rio.

Mediada pelo jornalista Filipe Speck, diretor do veículo Matinal, o encontro reuniu diferentes perspectivas dos desafios para atuar no campo jornalístico. A mesa foi composta por Ariel Bentes, cofundadora da Abaré Escola de Jornalismo, Daiene Mendes, diretora do Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ), Fabiana Sousa, analista de comunicação estratégica na Fundação Itaú, além de Victória Lôbo, diretora executiva e cofundadora do Conquista Repórter. Ao abrir o debate, Speck defendeu que o chamado jornalismo de território é um retorno às origens do fazer jornalístico, agora diante de novos desafios.

Às discussões sobre o futuro do jornalismo local também abriram espaço para uma discussão da sustentabilidade dessas organizações. Fabiana Sousa, analista de comunicação estratégica na Fundação Itaú, anunciou o projeto “Locus”. A iniciativa visa dar suporte estratégico e financeiro a organizações de jornalismo local a partir do segundo semestre deste ano. Fabiana reiterou o apoio aos veículos locais e disse que a pluralidade de futuros, assim mesmo, no plural, é o que move o jornalismo.

Cria do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, Daiene Mendes, cofundadora do jornal Voz das Comunidades e diretora do FAJ, comentou a importância de apoiar e financiar o jornalismo independente. Ela reforçou o papel das organizações em contribuir para manter vivas e fortes as perspectivas próximas dos territórios. “Meu trabalho é fortalecer organizações em todo Brasil que atuam nas suas localidades. Sentada nessa cadeira, a maior contribuição é reverenciar essas organizações”, afirmou.

Para ela, o jornalismo local é a inovação que o Brasil precisa para se reconectar com a audiência em um contexto em que a informação está em desconfiança. “Existe uma visão como se o jornalismo tivesse acabando. Enquanto isso, na verdade, existe um campo muito preparado, criativo, resiliente para trazer outras perspectivas e encantamento. A magia é o que nos reconecta, isso que refloresce o jornalismo”, afirmou.

Também presente na mesa sobre os caminhos do jornalismo de território, a jornalista amazônida Ariel Bentes falou a partir da perspectiva de produzir pautas na região Norte do país. Ela destacou a diferença do olhar jornalístico quando se está no local, ao invés de apurar e retornar para um grande centro urbano. Também comentou o papel que os veículos locais desempenham em desmistificar estigmas sobre região, raça e gênero. No caso da Abaré Escola de Jornalismo, a atuação tem foco em combater a desinformação e cobrir in loco a cidade de Manaus. “A gente enfrenta vários estigmas que são reproduzidos pela imprensa oficial e tradicional, é uma constante contranarrativa”, conta. A sétima edição do Atlas da Notícia, produzido em 2025, apontou um total de 1.264 veículos jornalísticos na Região Norte.

Em entrevista, Ariel reforçou que, mesmo em um contexto de inteligência artificial nas redações e até mesmo na substituição de alguns profissionais, a IA ainda não consegue substituir o trabalho do jornalista, em especial o que está no território. “É a gente que tem a sensibilidade e a subjetividade de conversar, interpretar e trazer novas perspectivas”.

Perspectiva compartilhada por Victória Lôbo, diretora executiva e co-fundadora do Conquista Repórter. A jornalista contou sua experiência à frente do veículo, que atua no município baiano de Vitória da Conquista. A organização surgiu a partir da inquietação sobre como o jornalismo pode se afastar da realidade local quando não está voltado para o território.

Victória reforçou a importância de estar perto de quem consome notícia para além dos centros urbanos. Na visão da jornalista, os veículos independentes não são apenas canais de proximidade com o público, mas também mecanismos de combate à desinformação em um âmbito mais próximo das comunidades. “É fazer jornalismo junto com as pessoas para garantir que a informação de qualidade circule em um ambiente de desinformação”, reforça. Para a jornalista, o futuro do jornalismo é local.

Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.

Foto em destaque: Zô Guimarães (@zoguimaraes_foto)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).