Mesa reuniu Gaía Passarelli, Rosental Alves, Emilio Laszlo e Osvaldo Lopes para discutir o crescimento dos criadores independentes de conteúdo, a transformação das redações e os desafios da credibilidade na era das plataformas digitais
09/jun/2026
O crescimento dos criadores independentes de conteúdo, a migração de jornalistas para projetos próprios e as mudanças na forma de consumir notícias pautaram a mesa “Quando o influenciador vira repórter, o que muda?”, realizada no segundo dia do Festival 3i 2026. Participaram do debate a jornalista, escritora e criadora das newsletters Tá Todo Mundo Tentando e Guia Pauliceia, Gaía Passarelli; o professor Rosental Calmon Alves, fundador do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da Universidade do Texas; o coordenador de conteúdo da plataforma argentina Gelatina, Emilio Laszlo; e o jornalista e head de conteúdo do Fala Roça, Osvaldo Lopes, responsável pela mediação da conversa.
O encontro ocorreu em um momento de transformações profundas no ecossistema da informação. Organizações jornalísticas tradicionais, newsletters independentes, streamers e criadores de conteúdo disputam espaço, atenção e credibilidade em um ambiente cada vez mais mediado pelas plataformas digitais. A discussão ganha ainda mais relevância após a aprovação da Lei 15.325/2026, que regulamenta a profissão de multimídia no Brasil e tem gerado debates entre entidades representativas do jornalismo.
Com base em dados do mercado dos Estados Unidos, Rosental mostrou que cresce o número de jornalistas que deixam veículos tradicionais para criar projetos independentes, ao mesmo tempo que criadores de conteúdo ampliam suas estruturas e passam a operar de forma semelhante a empresas de mídia. “Os influenciadores estão se tornando meios de comunicação”, observou. Como exemplo, citou casos de criadores que passaram a contratar jornalistas e formar equipes próprias, aproximando suas produções de práticas tradicionalmente associadas às redações.
Na avaliação do pesquisador, a mudança altera profundamente a lógica da profissão: “Quando o repórter vira influenciador, ele perde a identidade institucional e passa a ser ele mesmo o produto”. A transformação amplia a liberdade editorial, mas reduz parte da proteção jurídica e estrutural oferecida pelas empresas de comunicação.
A experiência de Gaía Passarelli ilustra essa tendência. Após passagens pela MTV Brasil e pelo BuzzFeed, ela lançou em 2021 a newsletter Tá Todo Mundo Tentando, que reúne cerca de 23 mil assinantes. Para a jornalista, o principal diferencial desse modelo está na relação direta com o público: “Ser dono da sua audiência significa poder levar sua comunidade com você. Quando você constrói audiência dentro de uma plataforma, essa audiência não é realmente sua”. Ela também destacou que o Brasil começa a desenvolver um ecossistema próprio de newsletters e iniciativas independentes, embora ainda distante da escala observada nos Estados Unidos.
Do lado argentino da mesa, Emílio Laszlo apresentou a trajetória da Gelatina, canal de streaming que combina jornalismo, entretenimento e transmissões ao vivo. O projeto nasceu durante a pandemia e cresceu até se transformar em uma empresa de mídia sustentada principalmente pela contribuição de sua comunidade de apoiadores: “A diferença principal é ter um público ativo. É construir uma comunidade que comenta, compartilha e debate conosco”. Segundo ele, esse vínculo permite não apenas financiar o projeto, mas também criar formas de participação que extrapolam o ambiente digital.
Laszlo destacou ainda que a crise de confiança nas instituições abriu espaço para novos formatos de comunicação mais próximos do público. Para ele, parte do crescimento dos criadores independentes está relacionada à capacidade de estabelecer relações mais diretas e menos hierarquizadas com a audiência.
Como mediador da mesa, Osvaldo Lopes trouxe dados que ajudam a explicar esse cenário. Citando informações do Instituto Reuters, lembrou que a América Latina está entre as regiões que mais consomem notícias pelas redes sociais, com mais de 60% da população de países como Brasil, Colômbia e Argentina utilizando essas plataformas para se informar.
“O público jovem não quer mais saber do plantão da TV. Eles querem a notícia filtrada pelo carisma e pela linguagem de quem já acompanham”, ressaltou.
Apesar das trajetórias distintas, os participantes convergiram em um ponto: as fronteiras entre jornalismo e criação de conteúdo estão cada vez mais difusas. Enquanto jornalistas constroem marcas próprias e dialogam diretamente com suas audiências, empresas tradicionais adotam formatos, linguagens e estratégias popularizadas pelos criadores digitais.
Rosental observou que a influência já se inverteu. “Quem está ditando as tendências e mostrando o que funciona são os influenciadores e as pessoas que os seguem”, avaliou. Para ele, redações que antes desprezavam formatos como vídeos verticais e narrativas em primeira pessoa hoje procuram reproduzi-los para manter relevância junto ao público.
O desafio, segundo os palestrantes, é garantir que a renovação dos formatos não signifique o abandono dos princípios fundamentais do jornalismo, como a apuração, a verificação e a transparência.
Ao fim da mesa, uma pergunta resumiu o principal desafio discutido pelos participantes: uma informação cuidadosamente apurada consegue competir com um boato produzido para viralizar?
Para Gaía Passarelli, o cenário atual exige atenção: “A gente está vivendo um momento em que o boato bem editado vai muito longe, muito rápido. E isso é um tremendo problema”.
A reflexão encerrou um debate marcado pela constatação de que o jornalismo já não disputa apenas a atenção do público, mas também a velocidade, os formatos e as dinâmicas de circulação da informação nas plataformas digitais.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).