NOTÍCIA

Festival 3i 2026: os olhares que fazem a diferença na hora de cobrir as eleições

Mesa do evento abordou desinformação, imparcialidade e segurança profissional em tempos plataformas digitais e nervos à flor da pele

POR Maria Luísa Fontes e Sofia Inerelli, da Agenc/Uerj | Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia |

03/jun/2026

Escolhas, enquadramentos, contextos e ângulos fazem a diferença na escrita de uma reportagem. Esta foi uma das conclusões da mesa “Onde deve estar o foco do Jornalismo nas eleições de 2026”, realizada na última sexta-feira (29) durante o Festival 3i 2026, no Porto Maravalley, centro do Rio de Janeiro. Participaram da conversa as jornalistas Fabiana Moraes, escritora e professora da Universidade Federal de Pernambuco, Cecília Olliveira (Fogo Cruzado e Intercept Brasil) e Juliana Dal Piva (ICL), com mediação do jornalista Edu Carvalho, colunista do #Colabora.

Os participantes destacaram a preocupação em torno da disseminação de desinformação promovida através dos algoritmos personalizados das plataformas digitais. Segundo Fabiana Moraes, sistemas políticos podem se aproveitar do período eleitoral para utilizar aspectos emocionais e difundir informações enviesadas e deturpadas. Muitas das vezes, as pessoas que recebem esses conteúdos fazem parte de bolhas na internet que apenas reafirmam sua forma de pensar.

Outro problema destacado na mesa foi o uso da inteligência artificial (IA) para distorcer conteúdos e gerar desinformação. Juliana Dal Piva afirmou que existe uma grande chance de a sociedade vivenciar um cenário problemático de desinformação com uso de inteligência artificial e que um dos desafios do jornalismo num ano eleitoral é ajudar as pessoas a compreender o que é falso, assim como treiná-las para identificar esses conteúdos. “O alerta para as pessoas é sempre: se perguntem de onde veio essas informações, ou procurar em outros lugares também, além desse que vocês tão vendo”, complementou a jornalista.

Nesse momento, torna-se essencial produzir conteúdos objetivos para o público. No entanto, de acordo com Dal Piva, a objetividade do jornalista não deve ser medida da mesma forma em todas as situações, pois cada caso envolve uma abordagem diferente. “Como é que você coloca duas situações ou duas pessoas altamente desiguais em equilíbrio? Elas não são iguais ou não há equilíbrio possível”, argumentou a jornalista, que alertou também para os perigos de assumir um falso posicionamento de neutralidade e ignorar violações de direitos.

Cecília Olliveira, co-fundadora do Intercept Brasil e do Fogo Cruzado, também falou do que chamou de “mito da imparcialidade” e disse que, se é preciso seguir uma linha editorial, já há um  posicionamento já está sendo assumido. “A coisa mais danosa pro jornalismo é você achar que imparcialidade existe e começar a perseguir um fantasma”, afirmou. Moraes concordou com o posicionamento da colega e disse que a imprensa não deve ficar com medo de ser chamada de militante por cobrir determinado assunto, pois a ideia de que a mídia comercial é imparcial, enquanto outras mídias são parciais é reflexo do que o senso comum pensa sobre o jornalismo e não reflete na prática de fato.

As jornalistas acrescentaram que as críticas à imprensa não ficam só no campo das palavras. Dal Piva contou que já foi alvo de campanhas de difamação, falsificação de conversas e que até já forjaram uma foto dela. A jornalista catarinense afirmou acreditar que, nas eleições deste ano, por causa do avanço da tecnologia e da inteligência artificial, haverá mais ataques e perseguições contra os jornalistas.

Nesse sentido, a mesa também discutiu a insegurança que os jornalistas muitas vezes enfrentam ao apurar informações mais sensíveis, e os participantes mencionaram a cobertura da internação do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2026, na qual profissionais da imprensa foram ameaçados, agredidos e expostos por apoiadores do ex-presidente. Olliveira afirmou que “não dá pra fazer reportagem investigativa mais sem plano de segurança” e que é preciso institucionalizar a proteção dos jornalistas para garantir a segurança profissional dos trabalhadores.

Para Fabiana Moraes, “a democracia precisa de um jornalismo que não apenas cubra o poder, mas que se reconheça como o poder”. Ao longo de toda a conversa, os participantes explicitaram a necessidade do jornalismo de aprofundar suas abordagens e se preparar para as mudanças tecnológicas, ao passo que se organiza para cobrir o clímax do período eleitoral em outubro.

Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.

Foto em destaque: Zô Guimarães (@zoguimaraes_foto)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).