Criadora do veículo El Surtidor e premiada internacionalmente, a paraguaia afirma que, mesmo em tempos de inteligência artificial, jornalismo nunca foi tão relevante como agora
18/jun/2026
A jornalista paraguaia Jazmín Acuña é cofundadora e diretora editorial do El Surti, veículo referência em jornalismo visual na América Latina, e vê na transformação constante o caminho para o jornalismo estar sempre conectado com o público. Consolidada como uma das vozes mais inovadoras da região, há quase 15 anos ela se dedica aos temas de acesso à informação e aos direitos humanos.
Integrante da Rede Global de Jornalismo Investigativo, Jazmín levou sua experiência ao Reuters Institute da Universidade de Oxford, onde desenvolveu o conceito de Jornalismo de Mudança – a ideia segundo a qual o jornalismo, mais do que produzir conteúdo, meça seu sucesso pela qualidade da transformação social que promove, conectando e inspirando o público a agir diante de crises como a climática e a de desinformação.
A trajetória de Jazmín acumula prêmios prestigiados, como Gabriel García Márquez (2018) e o Ortega y Gasset (2020), por investigações sobre desmatamento e o avanço do fundamentalismo. Em entrevista exclusiva ao Foca no 3i, a jornalista analisou o papel do jornalismo digital como instrumento de mudança.Confira na íntegra:
Foca no 3i: O que é jornalismo de mudança?
Jazmín Acuña: É uma proposta para abordarmos o nosso ofício de forma mais intencional. É um jornalismo que busca, de forma explícita, que a vida das pessoas, de suas comunidades e das sociedades melhore. Nele, a publicação não é o ponto final do nosso trabalho; às vezes, é apenas o início. Buscamos um impacto tangível na vida das pessoas, que vá além dos números, das métricas de alcance ou das impressões nas redes sociais. Queremos mudanças concretas para que as pessoas digam: “O jornalismo ajudou a melhorar a minha vida”. Além disso, construímos relações muito mais horizontais com o público, propondo experiências coletivas para processar a informação.
Foca no 3i: Quem é você? Se você fosse se definir em uma palavra, qual seria?
Jazmín Acuña: Eu sou Jazmín Acuña, cofundadora do El Surtidor, um veículo nativo digital que nasceu no Paraguai e agora está se expandindo pela região. Se eu tivesse que escolher uma palavra, seria otimista. Sou muito otimista. Uma amiga costumava dizer que na análise eu sou pessimista, mas na prática sou muito otimista. Estou sempre tentando pensar em como podemos superar os nossos desafios mais urgentes.
Foca no 3i: Por que escolheu o jornalismo?
Jazmín Acuña: Porque quero mudar as coisas. Existem coisas com as quais eu não estava e continuo não estando de acordo, coisas que me deixam muito inconformada, e o jornalismo para mim é um veículo, uma ferramenta para a mudança.
Foca no 3i: Qual a sua visão para o futuro do jornalismo?
Jazmín Acuña: Para mim, o futuro do jornalismo vai ser um futuro muito mais próximo das pessoas. Essa é a minha visão.
Foca no 3i: Quais as suas referências? Quem ou o que te inspira?
Jazmín Acuña: Muitas pessoas me inspiram. Os veículos nativos digitais da América Latina continuam me inspirando muito. Na verdade, fundamos o El Surtidor porque vimos que outros estavam fazendo isso, aproveitando a internet para canalizar histórias que estavam sendo invisibilizadas. Dez anos depois, continuo olhando para muitos deles como inspiração, como o Mutante, da Colômbia. Também me inspiram muito as rádios comunitárias da América Latina, principalmente as que servem para denunciar injustiças e que estão muito imersas em suas comunidades.
Foca no 3i: O que é mudança para você e qual conselho você daria para os jornalistas mais jovens?
Jazmín Acuña: A mudança realmente depende muito do contexto e da história com a qual você está trabalhando, não é uma coisa só, pode ser muitas coisas. Mas ela sempre aponta para um lugar melhor. A mudança, para mim, é sempre um lugar melhor. O meu conselho é que somos mais valiosos, mais importantes e relevantes do que nunca neste momento. A forma de manter essa relevância e ser ainda mais importante neste contexto de disrupção da inteligência artificial e de múltiplos desafios, para que o jornalismo volte a ganhar protagonismo, é não continuar repetindo as mesmas fórmulas, não continuar fazendo as coisas da mesma maneira.
Foca no 3i: A inteligência artificial é uma ameaça maior para a verdade ou para o emprego dos jornalistas?
Jazmín Acuña: Ela vem para aprofundar uma crise que já vínhamos arrastando sobre os consensos e sobre a verdade. Sem dúvida é uma ameaça, e eu a vejo como uma ameaça principalmente para a construção do sentido comum. Há muito poder e muito dinheiro por trás dessas novas ferramentas que moldam o ecossistema informativo. Por outro lado, o meu conselho para os profissionais é entender que somos mais valiosos, importantes e relevantes do que nunca neste momento. A forma de manter essa relevância no contexto de disrupção da IA é não continuar repetindo as mesmas fórmulas, não continuar fazendo as coisas da mesma maneira.
Foca no 3i: Você acredita ainda na mudança?
Jazmín Acuña: Sim. Acredito que nós podemos, sim, ao menos propor alternativas e que podemos ter protagonismo e voz nesses assuntos. O livro recente que lançamos no El Surti sobre a corrida pela inteligência artificial a partir do Sul Global é, no final das contas, um resultado desse otimismo.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).