Em entrevista exclusiva após ministrar uma das oficinas do Festival 3i 2026, o professor e jornalista abordou o uso da inteligência artificial no jornalismo
22/jun/2026
Nos últimos anos, o jornalismo tem sido marcado por debates acerca do uso de inteligência artificial (IA) generativa na comunicação. No Festival 3i 2026 não foi diferente: mesas, debates e trocas de ideias contemplaram a temática durante os três dias de evento.
Doutor em Comunicação e professor do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Moreno Osório ministrou a oficina “Curadoria humana em tempos de IA” durante o evento. A sessão buscou operacionalizar métodos de curadoria humana no ambiente digital, valorizando o conhecimento do profissional de comunicação no atual cenário – saturado de informações.
Segundo Osório, que é também sócio-fundador da Newsletter Farol Jornalismo, é fundamental “manter as pessoas no centro da comunicação”. Em entrevista exclusiva ao Foca no 3i, ele aborda o futuro do jornalismo junto ao avanço da IA. Confira na íntegra:
Foca no 3i: Para você, a inteligência artificial representa mais riscos ou mais oportunidades para o jornalismo?
Moreno Osório: É uma pergunta difícil e eu vou responder da maneira como eu iniciei a minha oficina. Trata-se de um avanço difícil de conter, então acredito que representa as duas coisas. Há oportunidades e há riscos. A preocupação deve ser sempre manter as pessoas no centro; é um sistema que emula um determinado tipo de inteligência humana, devemos nos ater a isso. Devemos equilibrar as questões, não sendo nem muito conservadores e nem muito festivos, tendo dupla atenção em como as novas tecnologias influenciam o fazer jornalístico.
Foca no 3i: Quais regulamentações você compreende como fundamentais para o uso de IA nos veículos comunicacionais?
Moreno Osório: É uma questão complexa, deixo a especificidade da questão àqueles que têm maior propriedade para discorrer sobre o assunto. O que posso dizer é que é urgente a regulação. Trata-se de um movimento planetário, com avanços e retrocessos constantes e concomitantes. É necessário que a sociedade civil se organize quanto a isso. O jornalismo como ator da sociedade civil vem tentando se organizar nesse sentido; a Ajor se destaca como um ator importante. Para o Jornalismo funcionar nesse novo cenário é preciso que trabalhemos da maneira mais unitária possível para lutarmos por direitos e regulação. Caso contrário, quem sai ganhando são as grandes plataformas.
Foca no 3i: Como você crê que os pequenos veículos, sobretudo os independentes, podem se manter vivos em meio aos avanços tecnológicos?
Moreno Osório: O jornalismo independente nasce em comparação e cresce em negação ao modelo de jornalismo pautado em interesses. Há uma problematização a ser feita nesse contexto, o que chamamos de jornalismo independente, independe de que mesmo? As Big Techs têm grande influência na comunicação, é importante ter essa noção. Esse jornalismo independente e que está sob o guarda-chuva da Ajor, por exemplo, já que são pequenos pequenos e médios veículos, que muitas vezes têm uma capilaridade e uma inserção nas suas comunidades. É o que faz desses veículos – e não sou eu quem estou falando, isso é o que a maioria diz – serem chamados de o futuro do jornalismo.
Foca no 3i: Com o jornalismo local e independente como o futuro, você aponta alguma medida que possa fortalecer esse modelo de comunicação?
Moreno Osório: Em primeiro lugar, devemos compreender os atores sociais responsáveis pelo financiamento jornalístico. O jornalismo sempre foi uma atividade cara e que requer subsídio para entregar um bom trabalho à sociedade. Essa é uma discussão complexa. Não temos, no Brasil, maturidade o suficiente para discutir modelos como o da BBC, por exemplo. O jornalismo local é essencial para a manutenção da profissão. O ecossistema, que é super complexo, passa por esse tipo de comunicação local e independente. Felizmente, veículos estão entendendo isso e, assim, passando a financiar esse tipo de jornalismo.
Foca no 3i: Como você imagina o jornalismo brasileiro nos próximos anos?
Moreno Osório: Eu vejo o jornalismo nesses próximos anos parecido no modo como tem evoluído nos últimos anos: amadurecendo conceitos, constatações e percepções, à medida também que alguns fatos e acontecimentos vão transformando o jornalismo, como redes sociais e inteligência artificial. Determinados tipos de fenômenos políticos, usos e apropriações dessas plataformas, como a gente viu ao longo do tempo, também vão moldando a evolução do jornalismo.
Foca no 3i: Se você pudesse dar uma recomendação aos futuros comunicadores, em meio à revolução informacional que estamos vivendo, qual seria?
Moreno Osório: Direi o que sempre digo em sala de aula: a última década talvez tenha sido o momento mais interessante para se escolher a comunicação como profissão. À medida que traz complexidades, as revoluções tecnológicas – principalmente das Redes Sociais e Internet – abrem um leque de possibilidades. Antes, não havia tantas oportunidades, era rádio, TV, jornal e revista. Agora, existem diversas maneiras de ser jornalista, é uma profissão muito versátil. É claro que há a precarização do trabalho como grande desafio e isso é motivo de atenção; o momento exige que a gente se una e lute. Mas, por outro lado, existem múltiplas oportunidades e acho que devemos equilibrar essas duas dimensões do jornalismo e apresentar a estudantes de jornalismo. A complexidade e a possibilidade andam juntas.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).