NOTÍCIA

Pablito Aguiar: “O quadrinho facilita a entrada em temas difíceis, mas não é menos complexo”

Repórter-quadrinista da Sumaúma defende a escuta paciente para abordar realidades delicadas e afirma que o formato é uma ferramenta democrática para romper preconceitos

POR Richard Gabriel, da Uerj | Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia |

23/jun/2026

O jornalista e ilustrador Pablito Aguiar é um dos nomes mais originais do jornalismo visual brasileiro contemporâneo. Conhecido por dar traço, voz e sensibilidade a histórias que costumam ficar à margem da grande mídia, ele começou sua trajetória registrando o cotidiano dos moradores de Alvorada (RS), sua terra natal. Além do livro “Alvorada em Quadrinhos”, obra que reúne relatos de 23 moradores de sua cidade natal, também publicou “Almoço: uma conversa com Eliane Brum” (2022), “Conversas em Porto Alegre” (2024) e o recente “Água até aqui” (2025). Hoje, vivendo e trabalhando diretamente de Altamira, no Pará, Pablito atua como repórter-quadrinista na Sumaúma, organização que desafia a lógica geográfica tradicional ao colocar a Amazônia no centro do debate global.

Convidado para a mesa “Criação, Emoção e Arte no engajamento da audiência” no Festival 3i 2026 – em que defendeu o uso dos quadrinhos para garantir o didatismo diante de dados técnicos, a imersão na realidade amazônica e a proteção de fontes vulneráveis –, Pablito concedeu esta entrevista exclusiva ao Foca no 3i. Nela, o ilustrador reflete sobre o poder lúdico e carismático dos quadrinhos para aproximar o público de narrativas áridas, detalha seu método de entrevista baseado na entrega e na paciência e deixa um conselho valioso para os jovens profissionais que desejam desbravar formatos alternativos na profissão.

Confira a entrevista na íntegra:

Foca no 3i: Na mesa do festival, você pontuou que, apesar de usar ilustrações, suas histórias seguem o mesmo fluxo e rigor de uma matéria escrita. Para você, como essa linguagem visual ajuda a contar narrativas tão complexas e pesadas de um jeito que o texto tradicional não consegue?
Pablito Aguiar: Eu faço quadrinhos não porque é uma linguagem que vai facilitar que eu conte histórias, mas porque é a única linguagem em que eu sei me comunicar. Para mim é até difícil falar sobre isso, porque começo a partir desse lugar: meu único jeito de me comunicar são os quadrinhos. Mas, no caminho, fui entendendo que eles possuem um carisma muito forte. Acho que isso está ligado à infância de certa forma. Não que o quadrinho seja para crianças, mas o traço, o desenho, carrega uma coisa lúdica que remete a essa fase. O leitor entra no quadrinho atraído pelo desenho, mas, uma vez dentro dele, pode entrar em contato com histórias bem duras. O quadrinho facilita a entrada em temas difíceis por ser desenho, mas não que ele seja simples ou algo menos complexo.

Foca no 3i: Quais dicas você pode dar para conduzir uma entrevista com tanta sensibilidade e respeito pelo entrevistado na hora de abordar assuntos mais delicados?
Pablito Aguiar: Acho que o primeiro passo, em qualquer contexto, é não interromper a pessoa. Você está conversando com ela, faz uma pergunta e precisa esperar ela terminar de falar, sem tentar completar. Às vezes, a palavra não sai e você coloca a sua palavra em cima da palavra dela. Isso interrompe o pensamento que a pessoa está tendo e você também perde aquela palavra específica. E as palavras têm personalidade própria. Quando vou fazer o meu quadrinho, coloco exatamente como a pessoa falou, porque a forma que ela escolheu falar tal coisa diz muito sobre quem ela é e sobre a sua história. O segredo é escutar a pessoa sem pressa, com calma e ter essa escuta paciente. E se caso se emocione durante a entrevista também não tem problema, acho que tem que ter uma entrega.

Foca no 3i: A proposta da Sumaúma é justamente inverter a lógica tradicional da grande mídia de que o olhar dominante se concentra no Sudeste. Como fazer jornalismo direto do “centro do mundo”, fora do eixo Rio-São Paulo, enriquece a visão dos brasileiros sobre os problemas do país?
Pablito Aguiar: Meu trabalho, desde o começo em Alvorada, tem esse sentido de quebra de preconceitos. Quando faço o meu quadrinho e entrevisto uma pessoa que está longe da minha realidade, eu quero que outras pessoas também se movam até aquela história, como se fosse uma viagem mesmo para outro país. Eu acho que aprendemos muito sobre a vida conhecendo outras realidades, e aprendemos inclusive sobre nós mesmos. É muito importante conhecer a realidade de pessoas que às vezes precisam que a gente olhe para elas, porque estão passando por situações de risco. São histórias ainda mais importantes para observarmos, entendermos e conhecermos. Escutar já é uma forma de ajuda.

Foca no 3i: Durante o debate, você listou que os quadrinhos ajudam na imersão e na acessibilidade da informação. Como esse formato alternativo ajuda a furar as bolhas da internet e aproximar o público urbano dessas realidades distantes?
Pablito Aguiar: Os quadrinhos são uma forma muito democrática de leitura. Eu escuto comentários e gosto muito disso, do tipo: “Ah, gostei muito desse quadrinho, vou ler com o meu filho”. Eles são democráticos porque podem chegar tanto nas crianças quanto nos adultos e nas pessoas mais velhas. Além disso, podem ser muito bem trabalhados nas escolas de uma forma mais lúdica. Vejo muitos professores imprimindo os quadrinhos e fazendo atividades com os alunos. Há uma facilidade didática no desenho e na coisa gráfica. O formato tem essa capacidade incrível de conseguir desenhar coisas que não estão registradas com fotos e vídeos.

Foca no 3i: Viver de projetos autorais e jornalismo independente no Brasil é um grande desafio financeiro. Que conselhos você daria a um jovem jornalista que deseja seguir por esse caminho de formatos alternativos?
Pablito Aguiar: No geral, é muito difícil viver de quadrinhos. Nossa, é muito difícil! Geralmente quem faz quadrinhos precisa fazer milhões de outras coisas para se manter. E o jornalismo em quadrinhos, como ainda é um campo novo, é mais difícil ainda. Para mim, foi muito importante não desistir no começo. Tenho muita paixão pelo que faço e sempre tive uma necessidade de criar na minha vida para me sentir vivo. Então, por muito tempo, fiz esse trabalho somente por paixão. Quando fiz as entrevistas em Alvorada, eu não recebia nada por elas; meu dinheiro vinha porque eu diagramava o jornal. Mas eu pensei: “Preciso que mais pessoas conheçam esse trabalho, porque talvez aí eu comece a ganhar dinheiro”. Depois disso eu comecei a me divulgar e a publicar no Instagram. As pessoas passaram a me conhecer, mais leitores chegaram e aí surgiu a oportunidade de trabalhar profissionalmente com isso. No início eu ganhava muito pouco, não dava para viver disso, mas continuei caminhando. Se você ama muito isso, não pare. Continue caminhando que coisas que você nem imagina vão acontecer no percurso. Mas não caminhe escondido. Deixe que as pessoas vejam que você está caminhando. Essa comunicação de mostrar o processo faz as pessoas se interessarem, e alguma porta vai se abrir no caminho.

Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).