Zô Guimaraes
O jornalista e pesquisador defende a Infraestrutura Pública Digital como forma de combater o poder das big techs sobre a informação
18/jun/2026
Nunca se teve tanto acesso a informação como antes, mas será que esse conteúdo realmente alcança todos? Para Ronaldo Matos, cofundador do Desenrola e Não Me Enrola, a informação ainda não é distribuída igualmente para toda a população – e, muitas vezes, estigmatiza o território e o modo de vida dessas pessoas. Ronaldo foi entrevistado pela jornalista, escritora e professora Fabiana Moraes durante o Festival 3i 2026.
Ronaldo vem buscando amplificar as vozes das comunidades apagadas ou estereotipadas pela mídia hegemônica. O jornalista diz que a desigualdade informacional é um problema crônico do jornalismo, e que o acesso às notícias não é só impedido pela falta de veículos em territórios indígenas, quilombolas e periféricos, mas pela cobertura que não engloba a realidade desses lugares. “Num raio de uma semana, em uma comunidade que tem 50.000 pessoas, estão acontecendo milhões de coisas relevantes, no saneamento básico, na viela, dentro de um mercadinho, dentro de um cabeleireiro, e isso não está sendo exposto em lugar nenhum”, argumenta.
Para Ronaldo Matos, as mídias surgidas no território cumprem essa lacuna histórica, mas não dão conta da totalidade dos temas. E o perigo dessa defasagem na cobertura jornalística, afirma, é a possibilidade de generalizar a complexidade dos territórios e assim repetir preconceitos.
Como solução, o jornalista aposta no desenvolvimento da Infraestrutura Pública Digital, um projeto que tem como objetivo incentivar em todas as organizações jornalísticas locais a capacidade de produzir dados sobre o seu território e transformá-los em conhecimento para os moradores. Assim gestores públicos teriam em mãos todo o conhecimento para criar propostas que dialogam completamente com as demandas de cada território.
Ao final da mesa, Matos ofereceu uma entrevista exclusiva para o Foca no 3i. Ele falou da importância de ter as pessoas como foco em uma cobertura jornalística, além de apontar possíveis soluções para o problema da desigualdade informacional. Confira:
Foca no 3i: O Desenrola busca sempre trazer as histórias das pessoas a partir do olhar delas, qual a importância disso?
Ronaldo Matos: Tem um primeiro elemento que é crônico no Brasil, que é uma pessoa valorizar a sua história, independentemente de onde ela venha, de onde ela morre, de como é a sua vida. A sua história é um fragmento de poder e de conhecimento. E uma demanda dos territórios das periferias e favelas é a dificuldade de valorizar a sua história, a sua ancestralidade, a sua avó, o seu avô, o seu pai, a sua mãe, o seu território, a sua rua, a sua viela, o seu escadão. Essa dificuldade para se valorizar e valorizar o território onde está é crônica. A cobertura jornalística que o Desenrola faz propõe esse respeitar de consciência. A minha história importa e eu posso inspirar outras pessoas com a minha história. Há uma desconstrução, uma pessoa tem tanto saber que ela não é um personagem, ela é uma fonte. Imagina uma pessoa descobrir durante uma entrevista que ela não é um personagem, ela é uma fonte especialista em determinado assunto. Isso muda a nossa ideia enquanto teoria newsmaking, mas isso muda também o nosso papel como jornalista, que é empoderar pessoas que não veem valor na sua história de vida. A cobertura jornalística tem três pilares: território, repertório e pertencimento. Se você tem um território e você tem um repertório, você cria pertencimento, cria conhecimento. E é isso que a gente propõe fazer na nossa cobertura.
Foca no 3i: Por que a mídia tradicional tem tanta dificuldade de trazer essas histórias?
Ronaldo Matos: Não acredito que a mídia tradicional tenha dificuldade, ela foi treinada para fazer isso. É diferente. E como foi treinada para fazer isso, ela tem um desafio crônico de mudar essa lógica de cobertura jornalística. O repórter, o editor, o editor-chefe, o manda-chuva da empresa, manda fazer daquele jeito. Ela precisa recomeçar pelo tomador de decisão para ele descer até o nível de quem produz, quem define o que é pauta. Então, a mídia tradicional reproduz esse jeito de fazer jornalismo porque ela desconhece um outro jeito de fazer, ou ela conhece, mas ela simplesmente abomina. A gente não pode deixar isso de lado.
Foca no 3i: Na entrevista para Fabiana Moraes, você falou de desigualdade e desinformação. Como elas se relacionam?
Ronaldo Matos: Eu estou aqui num bairro dos mais violentos do Rio de Janeiro. Se você analisar bem essa narrativa jornalística, ela está errada. Não tem como um bairro que é composto de 50, 100, 200 ruas, elas serem todas violentas. Sempre vai ter aquela parte onde as pessoas se cuidam mais, é mais seguro, as pessoas se acolhem. Então, a violência não é uma premissa para todo bairro. Isso tem nome. Generalização apressada. É um campo de pensamento de sofismas e falácias da filosofia do pensamento lógico. Então, o que o jornalista mais faz é difundir falácias e sofismas das pessoas. Um cidadão que tem dificuldade de conseguir um emprego, de morar bem, não vai ter tempo de se aprofundar e entender o que é o raciocínio lógico a partir de sofisma e falácia. Os jornalistas sabem disso. Esse é um dos elementos que a gente não pode apagar dessa ideia de desinformação. Começa por aí. Um outro ponto é que desinformação não é um fenômeno. Ela é um conjunto de coisas, é a dificuldade de acessar a internet, de acessar a notícia, de entender a notícia, de checar se aquela notícia é um fato ou um fake, de valorizar a notícia, de valorizar o jornalismo. Tudo isso compõe a desinformação. Às vezes a gente fala assim, a desinformação, a fake news, aquele conteúdo feito por IA, não é sobre isso. É algo maior, mais complexo. A fake news é uma ponta. Existe um sistema por trás dela, que não é só sobre quem produz, mas também sobre quem recebe, quem compartilha. Então, por isso que a gente precisa ter uma atenção redobrada para entender que a desinformação não é uma coisa solta, ou é uma única coisa, ela é um conjunto de coisas. Eu posso combater a desinformação, eu posso combater a fake news, só que, se eu chego na ponta e a pessoa não tem condição de se informar com qualidade, eu não combati a desinformação ainda.
Foca no 3i: Agora falando sobre a Infraestrutura Pública Digital, por que considera ser a solução? E por que ela é tão necessária no momento atual?
Ronaldo Matos: Porque a gente está num dos momentos da história onde as big techs não só estão moldando o modelo econômico do jornalismo, mas elas estão moldando também debates políticos. Há parcerias com governos autoritários, há parcerias com sistemas de guerra. Se o jornalismo continuar aliado dessas empresas, talvez a gente não esteja fazendo jornalismo mais. A IPD oferece uma ponta, uma porta, um jeito diferente de fazer. E é isso que a gente quer fazer com que as organizações experimentem. É possível. Agora, para isso, as organizações precisam ampliar seu conhecimento, sua visão sobre o impacto da sua cobertura jornalística e precisam principalmente entender que não é sobre mim, é sobre as pessoas. Quando a gente coloca as pessoas em primeiro lugar, automaticamente a nossa ideia sobre a necessidade de reduzir as big techs, ela muda. É por isso que essa infraestrutura pública digital está chegando num momento tão importante.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Zô Guimarães (@zoguimaraes_foto)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).