NOTÍCIA

Do consumo de notícias à desinformação: dados e tendências para pensar os hábitos informacionais no Brasil

Último dia de Dados e Tendências do Festival 3i 2026 reuniu pesquisas sobre o consumo de notícias no país, do jornalismo territorial e educação midiática ao racismo estrutural e financiamento público

POR Marcella Vieira, doutoranda em Comunicação na PUC-Rio | Supervisão: prof. Itala Maduell |

10/jun/2026

Às vésperas da Copa do Mundo de futebol masculino e do ciclo eleitoral no Brasil, compreender o consumo e a circulação das notícias no país parece cada vez mais essencial diante de um cenário informativo em constante transformação. No Festival 3i 2026, o espaço “Dados e Tendências” reuniu pesquisas e análises sobre as muitas mudanças do jornalismo em tempos de plataforma. No último dia do evento (31/5), três apresentações levaram ao público do Festival dados importantes sobre os hábitos informacionais no país em diferentes territórios.

Matheus Soares, coordenador de conteúdo do Aláfia Lab, falou sobre os principais resultados presentes no relatório da pesquisa Desigualdades Informativas 2025, com abrangência nacional. Andressa Kikuti, coordenadora executiva do Laboratório de Práticas para o Jornalismo Local à Serviço dos Públicos (LocalJor), projeto vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mostrou os resultados de pesquisa sobre como a população de Florianópolis (SC) se relaciona com o jornalismo local. Thais Siqueira, diretora da Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena, apresentou a pesquisa recém-publicada “Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias para reimaginar a justiça informacional no Brasil”, realizada nas cidades de São Paulo (SP), Recife (PE) e Santarém (PA).

Com os dados de suas respectivas análises, os palestrantes apontaram cenários de transformações, propondo caminhos que vão além de uma mera leitura tradicional de pesquisas de opinião e indicando hábitos informativos mais plurais e diversificados como pistas para o enfrentamento à desinformação. Nas três apresentações, as diferenças de abrangência, territórios e coletas de dados, entre outras variações, não impedem que as pesquisas tenham muitas aproximações e diálogos possíveis.

Com 1.512 entrevistas, o relatório Desigualdades Informativas 2025, produzido a partir de pesquisa quantitativa, em amostra nacional, confirma a tendência dos últimos anos: as redes sociais continuam sendo a principal fonte de informação entre os brasileiros. Da série histórica, iniciada em 2023, além de fatores como gênero, renda, idade, raça e posicionamento político, a pesquisa mais recente trouxe também as variáveis de escolaridade e religião.

Redes sociais menos sociais: amizades perdem espaço, algoritmos dominam

A pesquisa mostra que redes sociais e televisão seguem no topo dos hábitos informacionais dos brasileiros, mas os aplicativos de mensagens e a Inteligência Artificial (IA) ganham cada vez mais espaço. O relatório indica, aliás, que ferramentas de IA e chatbots já estão muito próximos da mídia impressa. Há também uma onda de crescimento das newsletters, apontando para o aumento de fontes mais personalizadas.

Nas redes, páginas de humor e de influenciadores ocupam espaço importante na dinâmica informacional da população. “As redes sociais estão ficando cada vez menos sociais”, destacou Matheus Soares. Com isso, a pesquisa mostra que as pessoas seguem cada vez menos os perfis de seus próprios círculos sociais (amigos, familiares, colegas e conhecidos). “Essa tendência, presente em todas as plataformas analisadas, indica um afastamento das conexões interpessoais e reforça o movimento de transformação das redes em espaços cada vez mais mediados por algoritmos de recomendação, conteúdos de influenciadores e perfis de humor”, afirma o relatório.

Matheus Soares, do Aláfia Lab, apresentou pesquisa sobre desigualdades na dinâmica de acesso à informação no país durante o último dia do Festival 3i 2026. Foto: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).

O hábito de pagar para acessar notícias ainda é rechaçado pela grande maioria da população. E quando as pessoas aceitam, o pagamento é predominantemente pelos meios digitais, mostrando que as assinaturas de veículos impressos continuam em declínio. Em relação a gênero, tendências importantes: mulheres se informam mais pela TV do que os homens e, nas redes, elas tendem a consumir mais perfis que unem informação e entretenimento. Já os homens utilizam mais os aplicativos de mensagens do que as mulheres. Nos recortes por idade, um dado que chamou a atenção foi a falta de interesse do público mais jovem na busca de informações sobre política.

Clique aqui para acessar o relatório completo Desigualdades Informativas 2025

Hábitos informacionais nos territórios periféricos

Também na seara dos hábitos de consumo de informação pela população brasileira, a pesquisa liderada pela Coalizão de Mídias trouxe dados muito recentes e desafiadores em meio a um contexto de forte sobrecarga informacional nas grandes cidades do país. O lançamento oficial do documento foi realizado em maio, a partir de um olhar mais aprofundado sobre as necessidades de cada territórios. “Decidimos realizar essa pesquisa a partir de uma ausência: sabemos pouco sobre como a informação e a desinformação operam, de fato, nos territórios periféricos”, disse Thais Siqueira, diretora da Coalizão, na época do lançamento.

A pesquisa revela os desafios dos meios de acesso à informação no dia a dia, reforçando, por exemplo, a predominância do celular entre os dispositivos. A diretora do coletivo pontuou que a falta de acesso à internet e a internet de baixa qualidade continuam sendo obstáculos para que populações de territórios periféricos se mantenham informados.

A pesquisa aponta dados importantes para a compreensão do consumo de notícias. Questões como o tipo de informação procurada, o formato de preferência, a frequência de acesso à internet, entre outras, foram perguntadas. Os entrevistados – 1.563 pessoas, distribuídas entre Santarém (22,20%), Recife (38,77%) e São Paulo (39,03%) – foram perguntados também sobre participações em rodas de conversas sobre fake news, informação ou redes sociais.

Thais Siqueira detalhou a pesquisa lançada em maio pela Coalizão de Mídias Periféricas, Faveladas, Quilombolas e Indígenas. Foto: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).

Sites de checagem ainda são desconhecidos

E não faltaram também as perguntas sobre checagem, incluindo o conhecimento do público sobre os sites de checagem: 1.256 pessoas (80,3%) não souberam indicar nenhum site. Apenas 307 pessoas (19,7%) afirmaram conhecer esse tipo de iniciativa. “Entre as pessoas que afirmaram conhecer sites de checagem de notícias, observa-se que esse conhecimento é, em geral, fragmentado e pouco consolidado. Há baixa recorrência de citações consistentes, e, em diversos casos, surgem confusões entre portais jornalísticos e iniciativas específicas de verificação. Esse cenário indica que, mesmo quando há algum nível de reconhecimento, ele não necessariamente se traduz em uso frequente ou em uma compreensão clara do papel dessas plataformas no enfrentamento à desinformação”, alerta o relatório.

A Coalizão de Mídias defende que o documento pode e deve ir além dos ambientes acadêmicos e dos congressos de nicho. O coletivo afirma que a pesquisa é uma ferramenta política que pode auxiliar tomadores de decisão em momentos de ampla circulação de desinformação. “No final do relatório, fazemos recomendações para o campo da comunicação e do jornalismo que podem ser muito válidas”, enfatizou Thais Siqueira. Fortalecimento do jornalismo territorial e comunitário; enfrentamento ao racismo estrutural na produção e distribuição da informação; práticas de educação midiática no fazer jornalístico; comunicação da crise climática a partir dos territórios; adoção de linguagem acessível e situada; ampliação do acesso à checagem de informações nos territórios são algumas das orientações.

Clique aqui para acessar a pesquisa Retratos da desinformação e do consumo de notícias para reimaginar a justiça informacional no Brasil

Jornalismo local: interesse público, participação e financiamento

Na seara do jornalismo local, pauta bastante presente no último dia de programação do Festival 3i 2026, Andressa Kikuti (LocalJor/UFSC) falou sobre as duas entrevistas conduzidas pelo projeto: com 604 moradores de Florianópolis e com 251 organizações da sociedade civil da capital catarinense para buscar entender como todos esses atores vêm se relacionando com o jornalismo local.

A pesquisadora ressaltou a importância de estabelecer diálogos entre o estudo e os jornalistas profissionais, que vivem a prática no cotidiano. Segundo os dados da análise, há um desengajamento das audiências e uma desconexão do jornalismo com a população. “O que está sendo tratado no jornalismo de Florianópolis não é o que as pessoas parecem querer ver ou ouvir”, afirmou Kikuti.

A pesquisa procurou entender o que consomem, quais temas consideram mais importantes e como se engajam. Temas como a relevância do jornalismo, os modelos de organização jornalística desejados e o financiamento da atividade jornalística foram abordados. No consumo cotidiano, um perfil humorístico de Florianópolis nas redes sociais foi amplamente citado durante as entrevistas como fonte de informação.

A pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina Andressa Kikuti trouxe ao Dados e Tendências os resultados de duas entrevistas conduzidas pelo LocalJor. Foto: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).

“Percebemos que as necessidades informativas dos entrevistados não são contempladas pelo jornalismo local da chamada grande mídia”, pontuou a coordenadora executiva do LocalJor. Em ambos os estudos (moradores e organizações), é possível perceber os muitos desafios enfrentados pelo jornalismo local. Desafios que passam por fatores como crise de confiança e sobrecarga informacional. Nada disso, porém, impede que o jornalismo local tenha o seu valor reconhecido. “Os dados mostram um certo paradoxo: o jornalismo local é considerado importante, mas nem sempre é visto como útil no dia a dia das organizações”, resume o documento.

A apresentação do LocalJor dialogou com uma das mesas do último dia do Festival: “Em que direções se movimenta o jornalismo local?”. Mais uma vez, o financiamento, os hábitos de consumo de notícias no ambiente digital e a informação de interesse público foram pontos de debate, numa mesa que reuniu profissionais atuantes em iniciativas de jornalismo local e hiperlocal.

Clique aqui para ler o Relatório Executivo do LocalJor – O que a sociedade civil de Florianópolis espera do jornalismo local?

Clique aqui para ler o Relatório Executivo do LocalJor – O que conecta os públicos ao jornalismo local

Essa onda de dados e análises sobre o consumo de notícias no Brasil levantou possibilidades de diálogos, ideias e reflexões sobre o futuro do jornalismo no país. E isso inclui os enormes desafios diante da atual paisagem de desinformação. As pesquisas apresentadas no espaço “Dados e Tendências” apontam recomendações, planejamento, estratégias e mudanças de rota para lidar com as muitas complexidades enfrentadas pelo campo da comunicação.

Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Natália Cesar (@natvcesar)/Hapu Coletivo (@hapucoletivo).