Consultora de conteúdos digitais, convidada do Festival 3i 2026, defende troca de saberes e lembra que checar informações é “necessidade crucial e inegociável”
23/jun/2026
Jornalista com quase três décadas de carreira, Gaía Passarelli “inventa moda e publica histórias na internet desde 1997”, como resume no LinkedIn a consultora para projetos editoriais em conteúdos digitais. Ex-diretora de conteúdo do Buzzfeed Brasil e hoje líder de parcerias do Substack no país, Gaía publica desde 2021 a newsletter Tá Todo Mundo Tentando, que entrega ensaios e uma curadoria da vida cultural em São Paulo a mais de 24 mil assinantes.
Convidada para a mesa “Quando o influenciador vira repórter, o que muda?”, do Festival 3i 2026, no Rio de Janeiro, Gaía concedeu uma entrevista exclusiva ao Foca no 3i, em que defende que jornalistas e criadores de conteúdo têm muito a aprender uns com os outros, e que IA, big techs e algoritmos podem ser tanto um risco quanto uma oportunidade para a imprensa.
Confira a entrevista na íntegra:
Foca no 3i: Estamos caminhando para uma maior colaboração ou distanciamento entre jornalistas e criadores?
Gaía Passarelli: Eu gosto de pensar que estamos em um momento de aproximação. A tecnologia pode distanciar, mas vejo os esforços do jornalismo na direção da criação de conteúdo. É uma tentativa de entender que a comunicação mudou, de se apropriar desses novos formatos e participar desse ecossistema de comunicação.
Foca no 3i: O que criadores de conteúdo podem aprender com jornalistas?
Gaía Passarelli: Checagem de fatos e a diferença entre informação e opinião. O próprio jornalismo muitas vezes não facilita isso: temos uma tendência ao jornalismo opinativo. Mas o principal que o jornalismo tradicional tem a oferecer aos criadores de conteúdo é a necessidade crucial e inegociável de checar informações e ter responsabilidade com aquilo que se publica. No entanto, temos muitos casos de jornalistas formados, importantes, premiados e estabelecidos que também nem sempre aplicam essa responsabilidade no seu trabalho.
Foca no 3i: Em que jornalistas podem aprender com criadores de conteúdo?
Gaía Passarelli: A facilidade com a tecnologia e o entendimento de como o público cria confiança com figuras humanas hoje em dia. O Casimiro [Miguel, sócio da CazéTV] é um excelente retrato disso: o espectador vê, gosta dele, e acaba confiando nele por tabela. Isso fez com que ele criasse todo um novo império de mídia. O que ele está fazendo, seu negócio, é um tremendo case de como esse novo jornalismo pode existir.
Foca no 3i: O que é mais promissor e quais os maiores desafios na geração de receita e sustentabilidade do jornalismo? Como equilibrar autonomia e financeiro?
Gaía Passarelli: Temos visto minguar nos últimos anos os prêmios e projetos que colocam dinheiro diretamente em iniciativas de jornalismo. Isso cria uma camada extra de dificuldade numa situação que já era muito complicada. As tecnologias que permitem monetização direta para projetos são onde vemos algum tipo de futuro. Não é fácil começar a monetizar um projeto, as pessoas não necessariamente vão começar a pagar só porque gostam de você: convencê-las a pagar na internet hoje é muito difícil. Por outro lado, um projeto de jornalismo independente como o Giro Latino, que cobre política na América Latina, está concorrendo diretamente com a assinatura da Netflix. Imagina o quão difícil é para uma iniciativa dessas pegar o número do cartão de crédito da pessoa. Mas, no momento em que isso acontece, o projeto é dono e único responsável por essa audiência que construiu.
Foca no 3i: Qual deveria ser a responsabilidade das plataformas na circulação de desinformação e na valorização de conteúdo jornalístico confiável?
Gaía Passarelli: As big techs que atuam no Brasil têm a obrigação de se adequar às leis brasileiras. Vimos um exemplo muito interessante na Austrália, que recentemente passou uma lei proibindo que menores de 16 anos tenham acesso a redes sociais. Você pode concordar ou discordar, mas é a lei, e todas as empresas de tecnologia que atuam no país têm que se adequar assim que ela entra em vigor. A Inglaterra também passou uma legislação específica, sobre o que pode ou não ser publicado, fazendo com que as big techs atuando naquele país se adequassem de imediato. Vivemos em um cenário de “terra de ninguém” nos últimos 20 anos, e essas iniciativas mostram como isso está começando a mudar. As sociedades têm percebido o impacto que essas tecnologias têm na vida, especialmente, dos seus jovens, e vêm forçando a criação de legislações. Elas não eram necessárias há 30 anos porque essas ferramentas não existiam. Vale lembrar também que o Brasil tem leis contra conteúdo racista, misógino e LGBT+fóbico, e as big techs atuando no Brasil têm que estar debaixo dessas leis também.
Foca no 3i: E quais as diferenças entre Sul Global e Norte Global nessa questão?
Gaía Passarelli: Os países são muito diferentes em diversos aspectos, inclusive na forma como consomem tecnologia. Se olhar para a Índia e para o Brasil, o WhatsApp é o principal meio de comunicação. Já nos Estados Unidos, muitos mal sabem o que é. E as formas de pagamento também: Brasil, China e Índia têm as suas próprias, cada vez menos dependentes das operadoras de cartão de crédito, que são muito centradas no Norte Global.
Foca no 3i: Quais os desafios e problemas que a IA traz para o jornalismo hoje?
Gaía Passarelli: No painel que fizemos no Festival 3i da Ajor, apareceram dois aspectos dessa questão. O professor Rosental Alves mencionou que 63% dos participantes do projeto dele não fazem nenhum tipo de checagem em relação ao que criam com inteligência artificial. Isso é chocante, porque a IA literalmente inventa e alucina; logo, não podemos considerá-la uma fonte confiável. Jornalistas sabem disso, mas às vezes o criador de conteúdo ainda não sabe, e os problemas gerados são diversos e imensos.
Foca no 3i: E os benefícios?
Gaía Passarelli: O Emílio Laszlo, da Gelatina, trouxe um ponto importante sobre uma série que estão produzindo sobre acontecimentos relevantes para cada ano do século XXI até agora. Eles fazem isso com a ajuda de IA, e não poderiam fazer de outra forma por causa do custo. Então, apesar dos vários complicadores, há muitos benefícios também. No caso da Gelatina, quem opera a inteligência artificial tem o cuidado de entender como ela funciona, e sabe que vai ter que checar tudo o que ela produz. O problema é que muita gente não sabe disso, então a IA vira mais uma camada de complicação num cenário já muito complexo.
Foca no 3i: Que tipo de regulação ou política pública é necessária para proteger o trabalho do jornalista perante a IA?
Gaía Passarelli: O escritor britânico Ian McEwan, um dos meus favoritos, acabou de dar uma entrevista para a Folha de S. Paulo falando sobre seu novo romance, What We Can Know, recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Ele fala sobre um futuro hipotético em que governos e universidades lidam com a questão da inteligência artificial restringindo seu uso ao meio acadêmico. Nesse cenário, as IAs são ferramentas poderosas e úteis, mas estão nas mãos de quem estudou e foi treinado para isso. Talvez esse seja um caminho.
Foca no 3i: Há também a questão da raspagem de informações de jornais pela IA e a linha tênue do direito autoral.
Gaía Passarelli: Não é do interesse das big techs que os jornalistas sejam bem remunerados pelo trabalho que, na prática, estão fazendo para essas empresas. Não vejo isso com bons olhos. Não sei qual é a saída, mas há mentes muito inteligentes pensando sobre isso o tempo inteiro. O que consigo observar de forma direta é que as big techs não estão necessariamente agindo em nosso benefício.
Foca no 3i: Ao observar o cenário atual, o que a deixa mais otimista?
Gaía Passarelli: Países como o Brasil têm criado suas próprias leis para lidar com um cenário que muda muito rapidamente. O caso do Felca [influenciador que denunciou casos de adultização, erotização e exploração de crianças e adolescentes na internet], por exemplo, foi uma investigação importantíssima à qual o governo respondeu muito rapidamente. Há outros exemplos no Brasil e em outros lugares do mundo e graças, em grande parte, aos pesquisadores, que já tinham tudo documentado. Isso mostra o quanto os acadêmicos são importantes.
Foca no 3i: E o que mais a preocupa?
Gaía Passarelli: O lado negativo dessa mesma moeda é o quanto de poder colocamos nos governos, e como esse mesmo poder pode ser usado contra a população, porque a história mostra que isso acontece. É importante contar com o apoio e a legislação do governo, mas também pensar no que a sociedade pode fazer quando esse governo não está atuando em benefício da sua própria população.
Foca no 3i: Como nós jornalistas podemos nos preparar para o futuro?
Gaía Passarelli: Comecei a escrever nos anos 90 e vim escrevendo até aqui, errando muito, aprendendo muito e acertando algumas vezes. Apesar de não ter formação acadêmica, acredito muito no poder do estudo e na formação correta dos jovens profissionais, além do incentivo à formação de professores, porque são eles que levarão lições adiante, principalmente as de ética. Reportagem aprendemos na prática, mas a ética, aprendemos com o outro.
Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.
Foto em destaque: Beatriz Waehneldt/PUC-Rio.